O rio Mira de canoa, as cegonhas do Cabo Sardão, um troço do Trilho dos Pescadores, as praias do estuário e do mar aberto e um salto à Zambujeira do Mar: o que fazer em Vila Nova de Milfontes quando a toalha já não chega.
Toda a gente conhece Vila Nova de Milfontes pelas praias, e não é para menos: poucas vilas da costa portuguesa têm, a cinco minutos a pé, um rio calmo para os miúdos e um oceano a sério para quem gosta de ondas. Mas reduzir Milfontes ao areal é perder metade da viagem. A vila vive à volta do estuário do Mira, fica no coração do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina e é uma das melhores bases para caminhar nas arribas, remar rio acima, ver cegonhas a fazer ninho em rochedos sobre o mar e comer peixe acabado de chegar. Este guia responde à pergunta "o que fazer em Milfontes" para quem quer mais do que a toalha estendida.
Vila Nova de Milfontes num relance
Milfontes é uma vila branca, de casas baixas com barras de cor, pousada na margem norte da foz do rio Mira, no concelho de Odemira. No verão enche-se de gente, sobretudo em agosto, quando a população parece multiplicar-se. Fora dessa altura, volta a ser o que sempre foi: uma terra de pescadores e de agricultores, com ritmo lento, cafés na praça e um pôr do sol que toda a gente vai ver ao miradouro sobre a barra.
A vila é pequena e faz-se a pé. O centro histórico, à volta da igreja matriz, tem ruas estreitas que descem até ao rio. Junto à foz, o Forte de São Clemente, construído no início do século XVII para proteger a barra dos ataques de piratas, é a imagem mais conhecida de Milfontes. É um bom ponto de partida para o primeiro passeio: dali vê-se o estuário inteiro, a praia das Furnas na outra margem e o Atlântico lá fora.
As praias de Milfontes: rio e mar
Mesmo que o objetivo seja ir além da praia, não se vai a Milfontes sem molhar os pés. O que torna as praias de Milfontes especiais é a variedade, em poucos quilómetros.
- Praia da Franquia: dentro do estuário, junto à vila, é a mais abrigada. A água do rio é calma, o que a torna a preferida das famílias com crianças pequenas.
- Praia do Farol: na boca da barra, entre o rio e o mar. Tem areal largo e vista para o forte, mas atenção às correntes da foz, que variam com as marés.
- Praia das Furnas: na margem sul do rio, do outro lado da vila. Tem uma parte virada ao estuário, de água tranquila, e outra virada ao mar aberto. No verão, costuma haver um pequeno barco que faz a travessia; fora dessa época, chega-se de carro pela ponte.
- Praia do Malhão: a norte da vila, é uma praia de mar aberto, com dunas e poucos serviços. Ideal para quem procura espaço e ondas, e muito procurada por surfistas.
Uma regra para todas: o Atlântico nesta costa é frio e tem correntes fortes. Prefira praias vigiadas na época balnear e respeite sempre as bandeiras.
O rio Mira de canoa ou de barco
O rio é a grande surpresa de quem chega a Milfontes a pensar só em mar. O Mira é considerado um dos rios mais bem preservados do país, e subir o estuário com a maré é uma das melhores formas de passar uma manhã. Há aluguer de canoas e caiaques na vila, e algumas empresas de animação turística organizam passeios guiados de barco ou de stand-up paddle.
Rio acima, a paisagem muda depressa: as margens enchem-se de juncos, de pequenas praias de areia fina e de aves, sobretudo garças e corvos-marinhos. A regra de ouro é planear o passeio com a maré: subir com a maré a encher e descer com a vazante poupa os braços. Peça sempre conselho a quem aluga o material, porque as correntes do estuário mudam com o tempo e as marés.
Caminhar nas arribas: o Trilho dos Pescadores
Vila Nova de Milfontes é uma das paragens do Trilho dos Pescadores, o percurso pedestre da Rota Vicentina que acompanha o litoral, sempre por caminhos de pescadores na beira das falésias. Mesmo sem fazer o trilho completo, vale a pena caminhar uma das etapas que passam pela vila.
A etapa entre Milfontes e o Almograve tem cerca de 15 quilómetros. Começa pela ponte sobre o Mira, passa pela praia das Furnas e segue pelas arribas, com enseadas escondidas, pequenas praias e vistas largas sobre o mar. O último troço tem bastante areia solta, o que cansa mais do que parece. Para quem quer algo mais curto, basta caminhar uma ou duas horas a partir das Furnas e voltar pelo mesmo caminho.
A etapa para norte, entre Porto Covo e Milfontes, é mais longa e tem muita areia, mas atravessa algumas das paisagens mais selvagens da costa alentejana. Os percursos estão sinalizados e descritos no site oficial da Rota Vicentina.
Cabo Sardão e as cegonhas sobre o mar
Um pouco a sul do Almograve fica o Cabo Sardão, com um farol no alto das arribas. Aqui acontece algo que é preciso ver para acreditar: as cegonhas-brancas fazem ninho nos rochedos sobre o mar. É o único sítio conhecido onde esta espécie nidifica em falésias costeiras, uma raridade que o ICNF destaca.
A melhor altura para ver os ninhos ocupados é no fim do inverno e na primavera. Leve binóculos e observe a partir do caminho, sem se aproximar da borda: as arribas são de xisto e areia e desfazem-se com facilidade. O pôr do sol no farol do Cabo Sardão é, por si só, uma razão para a viagem.
Um salto à Zambujeira do Mar
Mais a sul, a Zambujeira do Mar é a outra aldeia emblemática desta costa. Está pousada no alto da falésia, com a pequena capela de Nossa Senhora do Mar no promontório e a praia logo abaixo. É mais pequena e mais recolhida do que Milfontes e tem um ambiente de aldeia de pescadores, especialmente fora do verão.
Logo a norte da aldeia fica a Entrada da Barca, o pequeno porto de pesca, onde os barcos sobem a rampa e os restaurantes servem o peixe do dia e os percebes apanhados nestas rochas. Se gosta de marisco, é uma paragem obrigatória. A meio caminho entre as duas aldeias, o Almograve tem também praias amplas e uma vida mais tranquila.
O que comer em Milfontes
A cozinha desta costa junta o mar e o campo alentejano. Procure o peixe grelhado do dia, as caldeiradas, o arroz de marisco ou de polvo, as amêijoas e os percebes. Do lado da terra, há os pratos alentejanos de sempre, com coentros, pão e azeite, e os enchidos da região.
Para sobremesa, a doçaria conventual alentejana aparece em muitas pastelarias. E, ao fim da tarde, nada como um copo de vinho branco da região numa esplanada com vista para o rio.
Quando ir a Vila Nova de Milfontes
- Primavera (março a junho): a melhor altura para caminhar. As arribas enchem-se de flores, as temperaturas são amenas e há pouca gente.
- Verão (julho e agosto): praias cheias de vida, todos os serviços abertos, mas também trânsito, filas e preços mais altos. Reserve com muita antecedência.
- Outono (setembro e outubro): o mar ainda está bom para banhos em setembro e a vila fica calma. Uma das melhores épocas.
- Inverno: tranquilo e autêntico, ótimo para caminhar e para comer bem, mas alguns restaurantes e alojamentos fecham para férias.
Antes de ir
- Carro quase indispensável: os transportes entre aldeias são escassos, sobretudo fora do verão.
- Casaco no saco: mesmo no verão, o vento sopra ao fim da tarde e a temperatura desce.
- Marés: consulte a tabela de marés antes de ir para o rio, para a Praia do Farol ou para as caminhadas junto ao mar.
- Calçado: para as arribas, leve calçado fechado e confortável; a areia e o xisto são traiçoeiros.
- Respeito pelo parque natural: não saia dos caminhos, não pernoite fora dos parques de campismo e não deixe lixo.
- Reservas: em julho e agosto, alojamento e restaurantes enchem cedo. Reserve com antecedência.
Continue pela costa
Vila Nova de Milfontes é uma das paragens de uma das costas mais bonitas da Europa. Se quer juntar Milfontes a Porto Covo, à Zambujeira, a Odeceixe, a Aljezur e a Sagres numa só viagem, veja o nosso roteiro Costa Vicentina em cinco dias, que percorre todo este litoral de norte a sul, sem pressa, até ao Cabo de São Vicente.