Uma baía em forma de concha, uma cidade velha cheia de balcões de pintxos e dois montes para ver tudo lá de cima. O que fazer em San Sebastián (Donostia) em dois ou três dias, onde comer e como aproveitar a praia.
Há cidades que se visitam e há cidades que se comem, e San Sebastián é das duas. Se procura o que fazer em San Sebastián, a resposta cabe numa frase: passear pela baía de La Concha, subir a um dos montes que a fecham, perder-se na Parte Vieja de balcão em balcão de pintxos e guardar uma tarde para o mar mais bravo de Zurriola. Dois dias chegam para o essencial; três deixam tempo para respirar. Neste guia mostramos o que ver, onde e como comer, e como encaixar Donostia, o nome basco da cidade, numa viagem maior pela costa.
Donostia em poucas palavras
San Sebastián, ou Donostia em basco, fica na costa de Gipuzkoa, a poucos quilómetros da fronteira com França. Foi estância de veraneio da corte espanhola a partir do século XIX, e essa herança vê-se nos passeios largos, nas varandas de ferro e no ar elegante da cidade. Ao mesmo tempo, é uma cidade basca até ao tutano: ouve-se euskera nas ruas, as placas são bilingues e a vida faz-se à volta da mesa e do balcão.
A cidade é pequena e plana junto ao mar, o que a torna perfeita para explorar a pé ou de bicicleta. Divide-se em três zonas que interessam ao visitante: a Parte Vieja, encostada ao Monte Urgull; o Centro e a baía de La Concha, a oeste; e o bairro de Gros, do outro lado do rio Urumea, virado para a praia de Zurriola.
La Concha, a baía perfeita
A praia de La Concha é a imagem da cidade: um arco de areia clara, quase simétrico, fechado de um lado pelo Monte Urgull e do outro pelo Monte Igueldo, com a ilha de Santa Clara a meio da baía. O passeio que a acompanha, com a sua balaustrada branca e os candeeiros antigos, é dos mais bonitos de Espanha e enche-se ao fim da tarde de gente a correr, a passear o cão ou simplesmente a olhar para o mar.
A água é calma, abrigada pela ilha e pelos montes, e a praia funciona bem para famílias. No verão há barcos que levam os visitantes até à ilha de Santa Clara, onde há um pequeno cais e uma praia minúscula. Para oeste, depois do Palácio de Miramar, La Concha continua na praia de Ondarreta, mais tranquila e frequentada sobretudo por famílias locais.
O Peine del Viento
No extremo de Ondarreta, onde a cidade acaba e começa a rocha, ficam as três esculturas de aço de Eduardo Chillida que formam o Peine del Viento, instaladas em 1977 sobre as rochas batidas pelo mar. Num dia de mar agitado, as ondas rebentam por baixo da praça de granito e lançam jatos de água pelos orifícios do chão. É um dos lugares mais emocionantes da cidade, e fica especialmente bonito ao pôr do sol.
Os montes: Igueldo e Urgull
Para perceber a forma da baía, é preciso subir. No Monte Igueldo, o funicular que parte junto a Ondarreta funciona desde 1912 e é o mais antigo do País Basco. Lá em cima há um pequeno parque de diversões de outros tempos e, sobretudo, a vista: La Concha, a ilha e a cidade inteira encaixadas entre montes verdes. É a fotografia que todos levam para casa.
Do outro lado, o Monte Urgull sobe-se a pé a partir da Parte Vieja, por caminhos entre árvores e antigas fortificações. No topo ficam as ruínas do castelo da Mota e uma grande estátua do Sagrado Coração que vigia a cidade. É mais selvagem do que o Igueldo e é gratuito, o que faz dele um bom passeio de manhã cedo, antes do calor e da multidão.
A Parte Vieja e a cultura dos pintxos
A cidade velha de San Sebastián foi reconstruída depois do grande incêndio de 1813 e é hoje um quadriculado de ruas estreitas onde quase cada porta é um bar. No centro fica a Plaza de la Constitución, com as varandas numeradas que lembram os tempos em que servia de praça de touros, e a poucos passos a basílica de Santa María del Coro, com a fachada barroca enquadrada pela rua que lhe dá acesso.
Mas a Parte Vieja vive sobretudo de pintxos. Os pintxos de San Sebastián são pequenas porções servidas ao balcão, algumas expostas em cima do balcão, outras feitas na hora a partir de uma ardósia ou de um quadro na parede. Pede-se um ou dois em cada bar, com um copo de txakoli, o vinho branco jovem e ligeiramente gaseificado da região, ou um zurito, uma pequena cerveja, e segue-se para o bar seguinte.
Como fazer uma ronda de pintxos
- Comece cedo: ao fim da tarde, por volta das sete, os bares ainda têm espaço e os balcões estão cheios.
- Peça a especialidade da casa: quase todos os bares têm um pintxo pelo qual são conhecidos. Pergunte ao empregado.
- Prove os quentes: os pintxos feitos ao momento, a partir da lista na parede, costumam ser os mais interessantes.
- Não se esqueça da gilda: o pintxo mais clássico da cidade, um palito com azeitona, anchova e malagueta em vinagre, terá nascido em San Sebastián nos anos quarenta e deve o nome à personagem de Rita Hayworth no filme Gilda.
- Pague no fim: em muitos bares, diz-se ao empregado o que se comeu na hora de pagar. Confiança é parte da cultura.
Se quiser fugir à multidão da Parte Vieja, o bairro de Gros tem uma cena de pintxos igualmente boa e mais frequentada por locais.
Gros e a praia de Zurriola
Atravessando o rio Urumea pela ponte, chega-se a Gros, o bairro mais descontraído da cidade. A praia de Zurriola, aberta ao Atlântico, tem ondas a sério e é o ponto de encontro dos surfistas, com escolas de surf ao longo do passeio. Mesmo para quem não surfa, vale a pena sentar-se no muro ao fim da tarde e ver as ondas.
À entrada do bairro fica o Kursaal, o auditório e palácio de congressos desenhado por Rafael Moneo, dois cubos de vidro translúcido que de noite se iluminam como lanternas. É a sede do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, um dos grandes festivais europeus, que decorre em setembro.
Cultura além da mesa
Ao pé do Monte Urgull, o San Telmo Museoa ocupa um antigo convento dominicano com um edifício contemporâneo acrescentado e é a melhor introdução à história e à sociedade bascas. Do outro lado do rio, a Tabakalera, uma antiga fábrica de tabaco, transformou-se num centro de cultura contemporânea, com exposições, cinema e um terraço com vista sobre a cidade.
Se a viagem cair a 20 de janeiro, dia de São Sebastião, a cidade vive a Tamborrada: durante 24 horas, a partir da meia-noite, companhias vestidas de cozinheiros e soldados percorrem as ruas a tocar tambor. Em agosto, a Semana Grande traz fogo de artifício sobre a baía.
Saídas a partir de San Sebastián
San Sebastián é uma ótima base para conhecer a costa vizinha. Pasaia, logo a leste, é uma vila de pescadores encaixada num estuário, onde se atravessa de uma margem para a outra num pequeno barco. Hondarribia, junto à fronteira, tem uma cidade amuralhada e um bairro de pescadores com varandas de cores vivas.
Do lado francês, Biarritz fica a menos de uma hora de distância e é o complemento perfeito: surf, villas da Belle Époque e a Côte des Basques. Se quiser estender a viagem, o nosso guia Biarritz em cinco dias, entre ondas e memórias imperiais mostra como passar lá uns dias, com escapadelas a Bayonne e Saint-Jean-de-Luz. Para ir de San Sebastián até à fronteira há também o comboio regional basco, o Euskotren, que liga a cidade a Hendaye; confirme os horários no site da Euskotren.
Antes de ir
- Quanto tempo: dois dias para o essencial; três para incluir Pasaia ou Hondarribia.
- Quando: de junho a setembro para praia; primavera e outono para comer bem com menos gente. O tempo muda depressa, mesmo no verão.
- Onde ficar: na Parte Vieja para estar perto dos bares (com algum barulho à noite), no Centro para equilíbrio, em Gros para um ambiente mais local.
- O que levar: um casaco impermeável leve, porque a chuva é frequente nesta costa, e calçado confortável para os montes.
- Pintxos: leve algum dinheiro para os bares mais pequenos e não tenha pressa; a ronda é a refeição.
- Língua: um kaixo (olá) e um eskerrik asko (obrigado) em basco são sempre bem recebidos.
- Reservas: os restaurantes de alta cozinha esgotam com semanas de antecedência; os bares de pintxos não se reservam.
Para continuar a viagem
San Sebastián e Biarritz são duas faces da mesma costa basca, separadas por uma fronteira que quase não se nota. Se quiser atravessá-la e ficar uns dias do lado francês, siga o nosso roteiro Biarritz em cinco dias.