Cinco dias chegam para conhecer o essencial da Madeira sem correr: Funchal, a costa norte, as levadas da Laurissilva, os picos e a ponta leste da ilha. Um roteiro dia a dia, com dicas práticas e uma versão para quem tem uma semana.
Cinco dias são o tempo certo para um primeiro roteiro da Madeira: dá para conhecer o Funchal com calma, dar a volta à costa oeste e norte, caminhar numa levada dentro da floresta Laurissilva, ver o nascer do sol (ou as nuvens lá em baixo) no Pico do Areeiro e terminar na Ponta de São Lourenço, a ponta leste da ilha, seca e desenhada a vento. Não se vê tudo, ninguém vê tudo numa ilha com tantos vales, mas fica-se com a sensação certa: a de que a Madeira é muito mais do que um postal.
A ilha é pequena no mapa e grande no terreno. As estradas sobem e descem encostas, os túneis atravessam montanhas inteiras e o tempo pode mudar de um vale para o outro em vinte minutos. Por isso, este roteiro organiza os dias por zonas, para passar mais tempo a ver e menos tempo ao volante.
Antes de começar: onde ficar e como andar
Para cinco dias, a escolha mais simples é ficar sempre no Funchal. A capital tem a maior oferta de alojamento, restaurantes e serviços, e quase todos os pontos do roteiro ficam a menos de hora e meia de carro. Quem prefere variar pode passar uma ou duas noites no norte, em São Vicente, Seixal ou Santana, onde as noites são mais calmas e as manhãs começam com nevoeiro a escorrer pelas falésias.
O carro alugado dá liberdade, mas convém estar à vontade com subidas íngremes, curvas apertadas e estacionamento em rampa. A alternativa são as excursões organizadas e os táxis para os percursos pedestres, que resolvem um problema real: muitos trilhos são lineares e não terminam onde começam.
Dia 1: o Funchal a pé e de teleférico
O primeiro dia é para a cidade. Comece pelo Mercado dos Lavradores, com as bancas de fruta tropical, as floristas e a lota onde o peixe-espada-preto brilha nas bancadas. Daqui, a zona velha está a dois passos: a Rua de Santa Maria, com as portas pintadas por artistas, as tascas e os bares pequenos, é o sítio para almoçar sem pressa.
À tarde, suba ao Monte de teleférico. A viagem, por cima dos telhados e dos quintais, mostra bem como o Funchal é um anfiteatro virado para o mar. Lá em cima há a igreja de Nossa Senhora do Monte, os jardins e o ponto de partida dos famosos carros de cesto, trenós de vime conduzidos por dois homens de chapéu de palha que descem parte da encosta pelo asfalto. É turístico, sim, mas é também uma tradição com mais de um século e uma gargalhada garantida.
Termine o dia na marginal, ao pôr do sol, com os navios no porto e as luzes da cidade a acenderem-se encosta acima.
Dia 2: costa sul, Cabo Girão e as piscinas de Porto Moniz
Saia cedo para oeste. A primeira paragem é Câmara de Lobos, a vila piscatória com barcos coloridos na baía que encantou Churchill, e a seguinte, poucos minutos acima, o Cabo Girão. Com 580 metros, é apontado pelo turismo oficial da Madeira como o promontório mais alto da Europa, e a plataforma de vidro suspensa sobre o vazio, o skywalk, deixa ver as fajãs cultivadas lá em baixo, junto ao mar. Quem tem vertigens pode ficar pela parte de pedra do miradouro: a vista é a mesma.
Continue pela costa sul até à Ponta do Sol e à Calheta e depois corte para norte pelo planalto do Paul da Serra, uma meseta larga e despida que parece de outra ilha. A descida leva a Porto Moniz, no extremo noroeste, onde as piscinas naturais escavadas na lava enchem com a água do Atlântico. Se o mar estiver calmo e o dia quente, leve o fato de banho.
O regresso faz-se pela costa norte, com paragem no Seixal, uma praia de areia preta encaixada entre falésias verdes, e em São Vicente, antes do túnel que devolve ao sul.
Dia 3: as levadas e a floresta Laurissilva
Nenhum roteiro da Madeira está completo sem uma levada. Estes canais de rega, escavados na montanha ao longo de séculos para levar água do norte húmido para os campos do sul, são hoje a rede de caminhos que melhor mostra a ilha por dentro. Caminha-se ao lado da água, quase sempre em terreno plano, entre musgos, fetos e árvores cobertas de líquenes.
A floresta Laurissilva, Património Mundial, é o cenário de muitos deles. Escolha um percurso à medida do grupo: a Levada das 25 Fontes e a do Risco, a partir do Rabaçal, são as mais conhecidas; o Caldeirão Verde, a partir de Santana, é mais comprido e mais húmido, com túneis; e a Levada do Rei, no norte, é uma boa escolha para quem quer menos gente. Se quiser perceber porque é que esta floresta mexe tanto com quem lá entra, leia Madeira: respirar dentro da Laurissilva.
Uma regra importante: os percursos pedestres classificados (os "PR") estão sujeitos a registo prévio e a uma taxa para não residentes, paga pela plataforma SIMplifica. À data de outubro de 2026, a taxa geral é de 4,50 euros por pessoa, segundo a Visit Madeira, e há percursos com regras próprias. Confirme antes de ir, porque os valores e as vagas por horário podem mudar.
Leve casaco impermeável, mesmo que o Funchal esteja ao sol. Na serra, a névoa chega sem aviso.
Dia 4: Pico do Areeiro e o norte de Santana
Se tiver coragem para o despertador, este é o dia de subir ao Pico do Areeiro antes do nascer do sol. A estrada chega quase ao topo e, em muitas manhãs, o sol aparece por cima de um mar de nuvens, com os picos escuros a furar o branco. Mesmo sem nascer do sol, a paisagem de cristas e ravinas é das mais impressionantes de Portugal.
O percurso que liga o Areeiro ao Pico Ruivo (PR1) reabriu em 2026 com reserva obrigatória e capacidade limitada por horário. É uma caminhada exigente que merece um dia próprio; explicamos tudo noutro artigo deste blog. Para este roteiro, basta o miradouro e, se quiser, os primeiros minutos do trilho.
Desça depois para o norte pelo Ribeiro Frio, onde há um viveiro de trutas e o início de levadas curtas, como a que leva ao miradouro dos Balcões, e siga para Santana, a terra das casas de colmo triangulares pintadas de branco, vermelho e azul. À tarde, a costa norte entre Santana, São Jorge e Porto da Cruz oferece miradouros sobre falésias e ondas pesadas. Em Porto da Cruz, o engenho onde ainda se faz aguardente de cana é um bom pretexto para provar uma poncha feita como deve ser.
Dia 5: Ponta de São Lourenço e Machico
O último dia leva-o à outra Madeira. A Ponta de São Lourenço, no extremo leste, é uma península estreita de rocha vermelha, ocre e castanha, quase sem árvores, com o mar dos dois lados. O trilho (PR8) é aberto, ventoso e luminoso, e termina num cume com vista para os ilhéus. Vá cedo: ao meio-dia o sol aperta e não há sombra.
Na volta, pare em Machico, onde, segundo a tradição, desembarcaram os primeiros navegadores portugueses no século XV, e na Prainha, junto ao Caniçal, uma das poucas praias de areia natural escura da ilha. Para a última noite no Funchal, nada melhor do que uma espetada em pau de louro, bolo do caco com manteiga de alho e um copo de vinho Madeira.
E se tiver sete dias?
Com uma semana, a Madeira ganha espaço para respirar. Duas sugestões para os dias extra:
- Dia 6: o Curral das Freiras, uma aldeia no fundo de uma cratera rodeada de montanhas, de manhã, e o Jardim Botânico ou o Jardim Tropical do Monte Palace à tarde.
- Dia 7: o PR1 entre o Pico do Areeiro e o Pico Ruivo, com reserva feita com antecedência, ou um dia de barco para ver golfinhos e baleias, que passam nestas águas grande parte do ano.
Outra hipótese é trocar os dois dias por uma escapadinha a Porto Santo, a ilha vizinha das praias douradas, que se alcança de ferry ou de avião.
Quando ir
A Madeira é destino de todo o ano. A primavera traz flores e os trilhos verdes; o verão é a época mais seca e a melhor para banhos; o outono acalma as multidões e enche as levadas de água; o inverno tem as festas de Natal e o fogo de artifício da passagem de ano. Em qualquer estação, conte com chuva no norte e na serra e com microclimas: é possível sair do Funchal ao sol e encontrar nevoeiro cerrado meia hora depois.
Antes de ir
- Alojamento: fique no Funchal para simplificar; durma uma noite no norte se quiser mais silêncio.
- Transporte: carro alugado para liberdade total, ou excursões e táxis para os trilhos lineares.
- Trilhos: registe-se e pague a taxa dos percursos classificados na plataforma SIMplifica antes de sair; a rede móvel falha em zonas de montanha.
- Roupa: camadas, casaco impermeável e calçado com boa sola, mesmo para levadas fáceis.
- Horários: comece cedo os dias de caminhada e de miradouros altos; as nuvens costumam subir ao longo da manhã.
- Ritmo: não tente fazer duas caminhadas longas no mesmo dia. Na Madeira, as distâncias enganam.
Uma pausa dentro da ilha
Se o seu roteiro da Madeira cair no outono e quiser trocar um destes dias por uma experiência mais lenta, o Retiro entre sobreiros é a nossa proposta de dois dias e uma noite: parte do Funchal, junto ao Mercado dos Lavradores, sobe às encostas norte com paragens em miradouros, inclui uma caminhada guiada de cerca de três horas por um trilho de levada na Laurissilva e uma noite num refúgio familiar, com jantar e pequeno-almoço de produtos da terra, em grupos de no máximo seis pessoas. É uma forma de ver a ilha ao ritmo da névoa, sem pressa nem multidões.