Entre Estremoz, Borba e Vila Viçosa, até os passeios e as soleiras das portas são de mármore. O que visitar em Estremoz, como espreitar as pedreiras com segurança, os vinhos de Borba e o Paço Ducal de Vila Viçosa, num roteiro para dois dias sem pressa.
No Alentejo central há um triângulo de terras onde a pedra branca está em todo o lado: nos passeios, nas ombreiras das portas, nos lavadouros, nas fontes e até nos degraus das casas mais humildes. Estremoz, Borba e Vila Viçosa assentam sobre o mesmo maciço de mármore, e é por isso que a viagem entre elas se chama, com toda a justiça, a rota do mármore. Para quem pergunta o que visitar em Estremoz, a resposta curta é esta: o castelo e a vila alta, o mercado de sábado no Rossio, os bonecos de barro e o azulejo. Depois, a quinze minutos de carro, Borba e Vila Viçosa completam um dos roteiros mais bonitos e menos concorridos do Alentejo.
Uma terra feita de pedra
Debaixo destas três vilas estende-se o chamado anticlinal de Estremoz, uma dobra geológica com cerca de 40 quilómetros de comprimento que guarda um dos mármores mais apreciados do mundo. É explorado desde o tempo dos romanos e foi usado em mosteiros, palácios e igrejas por todo o país. Ao longo da estrada que liga Estremoz a Vila Viçosa, a paisagem muda de repente: aparecem montes de blocos brancos empilhados, gruas, escombreiras e, aqui e ali, enormes buracos retangulares que descem dezenas de metros pela terra adentro.
É uma paisagem industrial, mas tem uma beleza estranha, quase de escultura. E explica tudo o resto: a brancura das vilas, a riqueza dos palácios e o orgulho com que os habitantes falam da sua pedra.
O que visitar em Estremoz
Estremoz tem duas cidades numa: a vila alta, dentro das muralhas medievais, e a cidade baixa, espalhada à volta de uma das maiores praças do Alentejo.
A vila alta e a Torre das Três Coroas
Comece por cima. O castelo, com a sua torre de menagem conhecida como Torre das Três Coroas, domina a planície e vê-se a muitos quilómetros. Foi em Estremoz que morreu, em 1336, a Rainha Santa Isabel, mulher de D. Dinis, e a capela erguida no local onde se diz que viveu tem painéis de azulejo do século XVIII com cenas da sua vida. Hoje, parte do antigo paço real funciona como pousada. As ruas à volta, estreitas e silenciosas, levam a miradouros sobre os telhados da cidade baixa e o campo de olivais e vinhas.
O Rossio e o mercado de sábado
Cá em baixo, o Rossio Marquês de Pombal é o coração da cidade. Ao sábado de manhã, a praça enche-se com o mercado semanal e com uma feira de antiguidades e velharias que atrai gente de toda a região e do outro lado da fronteira. Há bancas de queijos, enchidos, azeitonas, legumes da horta, loiça de barro, ferro velho, móveis antigos e, claro, bonecos de Estremoz. É o melhor dia para chegar à cidade: tome o pequeno-almoço numa pastelaria do Rossio e perca-se entre as bancas antes do almoço.
Bonecos de barro e azulejos
Os bonecos de Estremoz, figurinhas de barro pintadas à mão, foram inscritos pela UNESCO em 2017 na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade. Vale a pena entrar numa oficina e ver como se modelam e pintam, peça a peça, as Primaveras, os presépios e as figuras do quotidiano alentejano. Para o azulejo, o Museu Berardo Estremoz ocupa o Palácio Tocha, um edifício do século XVIII com salas forradas de painéis originais, e mostra uma coleção que percorre vários séculos de azulejaria. Confirme horários antes de ir.
Borba: vinho, fontes e pedreiras
Borba fica a poucos minutos de Estremoz e tem duas razões de fama: o mármore e o vinho. No centro, a Fonte das Bicas, toda em mármore branco, é o cartão de visita da vila, e as casas da rua principal exibem portais e varandas trabalhados na mesma pedra.
À volta de Borba ficam algumas das pedreiras mais impressionantes do anticlinal. A regra é simples: não se visitam por conta própria. São zonas industriais, com taludes instáveis e maquinaria pesada. Há empresas locais e a própria Rota do Mármore do Anticlinal de Estremoz que organizam visitas guiadas a pedreiras, serrações e oficinas de canteiros, e é assim que se deve fazer. Ver de perto um bloco de várias toneladas a ser cortado com fio diamantado é uma daquelas coisas que mudam a forma como olhamos para um simples tampo de mesa.
Para o vinho, Borba é uma das sub-regiões dos vinhos do Alentejo, com uma adega cooperativa histórica e vários produtores que recebem visitas e provas. Marque com antecedência, sobretudo fora do fim de semana.
Vila Viçosa: a vila dos duques de Bragança
Vila Viçosa é, talvez, a mais elegante das três. Foi aqui que os duques de Bragança tiveram a sua corte durante séculos, e a vila ainda guarda esse ar aristocrático.
O Paço Ducal
O Paço Ducal ocupa todo um lado do Terreiro do Paço, uma praça imensa com a estátua equestre de D. João IV ao centro. A longa fachada, revestida de mármore da região, parece ainda mais branca nos dias de sol. Lá dentro, a visita guiada percorre salas pintadas, cozinhas com centenas de peças de cobre, a armaria e os aposentos privados da família real. O palácio é gerido pela Fundação da Casa de Bragança, onde deve confirmar horários e dias de encerramento, que variam com a época do ano.
O castelo e o santuário
No alto da vila, dentro das muralhas, o castelo guarda museus de arqueologia e de caça, e ao lado fica o Santuário de Nossa Senhora da Conceição, a quem D. João IV entregou, em 1646, a coroa de Portugal, proclamando-a padroeira do reino. Desde então, as rainhas portuguesas não voltaram a usar coroa. Desça depois pelas ruas de casas brancas, com laranjeiras nos quintais, e repare nos passeios: muitos são de mármore polido pelo tempo.
Comer na rota do mármore
A mesa nesta zona é alentejana de corpo inteiro. Procure sopa de tomate, migas, carne de porco à alentejana, borrego assado no forno e, para sobremesa, sericaia ou a encharcada. Em Estremoz há também uma tradição de doçaria conventual, e o queijo de ovelha e cabra da região é excelente com um copo de tinto de Borba. Ao almoço, as tascas do Rossio e das ruas à volta servem pratos do dia a preços honestos.
Antes de ir
- Quanto tempo: um dia chega para Estremoz e uma passagem por Borba; dois dias permitem juntar Vila Viçosa com calma e uma visita guiada a uma pedreira.
- Quando: a primavera e o outono são ideais. Escolha um fim de semana com sábado em Estremoz por causa do mercado.
- Pedreiras: visite apenas com guia ou empresa autorizada. Nunca se aproxime das bordas nem entre em caminhos de acesso por conta própria.
- Museus e palácios: o Paço Ducal e vários museus fecham num ou mais dias da semana. Confirme sempre antes de planear o dia.
- Como chegar: de carro, Estremoz fica perto da autoestrada que liga Lisboa a Espanha. Entre as três vilas, as distâncias são curtas e fazem-se em poucos minutos.
- Para levar para casa: um boneco de Estremoz comprado diretamente a quem o faz, uma garrafa de Borba e, se tiver espaço, uma peça pequena de mármore de uma oficina de canteiro.
Antes de ir, vale a pena ler também O Alentejo não se visita. Escuta-se., a nossa visita às oficinas de olaria de São Pedro do Corval, a outra grande terra do barro alentejano.
Do mármore ao barro
Estremoz é também o ponto de partida da nossa experiência Barro, mesa e memória: um dia inteiro que começa no centro histórico da cidade e segue até São Pedro do Corval, onde passamos a manhã nas oficinas, com aula prática à roda de oleiro, antes de um almoço de fogão de lenha numa herdade familiar. Uma forma de juntar à rota do mármore a outra matéria-prima que molda o Alentejo.