Uma tarde de felucca em Luxor, entre margens de palmeiras, templos dourados e um rio que nunca teve pressa.
Há rios que se atravessam e há rios que se habitam. O Nilo pertence à segunda espécie. Em Luxor, onde a cidade dos vivos ficou na margem oriental e a dos mortos na ocidental, a melhor maneira de o conhecer não é de ponte nem de cruzeiro: é a bordo de uma felucca, o barco de vela triangular que desce e sobe este rio há milhares de anos.
Embarcar sem motor
O Mahmoud recebe-nos no cais com um aperto de mão e um copo de chá de hibisco. A felucca dele é de madeira pintada de azul e branco, com almofadas espalhadas pelo convés e uma vela que parece demasiado grande para o casco. Não há motor. Há o vento, que sopra quase sempre de norte, e a corrente, que corre para norte. Entre os dois, o Mahmoud faz o resto com uma corda numa mão e o leme na outra.
Os primeiros minutos são de silêncio. Habituamo-nos ao balanço, ao estalar da vela quando apanha uma rajada, ao som da água a bater no casco. Depois, quase sem darmos por isso, a cidade fica para trás.
As duas margens
De um lado, os templos de Luxor e de Karnak acendem-se com a luz da tarde, colunas que já eram antigas quando Roma ainda não existia. Do outro, a margem ocidental mantém-se rural: canaviais, campos de cana-de-açúcar, búfalos a beber, crianças que acenam da água. Lá atrás, as montanhas tebanas guardam o Vale dos Reis.
É uma lição de geografia que nenhum livro ensina tão bem. Percebe-se, de repente, que tudo no Egito depende desta faixa verde. Para lá dela, a poucos quilómetros, começa o deserto.
Uma paragem na ilha das bananas
A meio da tarde, a felucca encosta a uma das pequenas ilhas a montante da cidade. Caminhamos entre bananeiras, provamos a fruta, pequena e doce, e sentamo-nos à sombra com uma família que vive da terra há gerações. A conversa faz-se com gestos, sorrisos e algumas palavras de árabe que o Mahmoud nos vai ensinando. Shukran, obrigado. Shway shway, devagar. Esta última fica connosco o resto da viagem.
O pôr do sol no rio
Voltamos à água quando o sol começa a descer sobre as montanhas da margem ocidental. O vento abranda, a vela quase pára, e o rio fica cor de cobre. Das mesquitas da cidade chega o chamamento para a oração do fim da tarde. Ninguém fala. Não é preciso.
Há quem venha a Luxor para ver túmulos e templos, e faz bem. Mas quem passa uma tarde na felucca leva também outra coisa: a sensação de ter visto o Egito pela janela por onde ele sempre se viu a si próprio.
Antes de ir
Quando: de outubro a abril, quando as tardes são amenas. No verão, o calor aperta mesmo junto à água.
Quanto tempo: reserve uma tarde inteira, cerca de três a quatro horas, para chegar à ilha e voltar com o pôr do sol.
O que levar: chapéu, protetor solar, um casaco leve para o regresso e dinheiro trocado para gorjetas.
Respeito: nas ilhas e aldeias, peça sempre antes de fotografar as pessoas.