À volta do Alqueva fica o primeiro destino Starlight do mundo. Como observar estrelas no Alentejo, do observatório da Cumeada às muralhas de Monsaraz, quando ir, como escolher a fase da lua e o que levar para uma noite inteira debaixo da Via Láctea.
Há poucos sítios na Europa onde, numa noite sem lua, se consegue ver a Via Láctea a olho nu de um horizonte ao outro. À volta da albufeira do Alqueva, no Alentejo, isso acontece com regularidade. O Dark Sky Alqueva foi certificado em 2011 como o primeiro Destino Turístico Starlight do mundo, uma distinção que reconhece a qualidade do céu noturno e o esforço para o proteger da poluição luminosa. Monsaraz, empoleirada num monte sobre o lago, é o melhor ponto de partida: de dia, uma aldeia medieval; à noite, uma janela para o universo. Neste guia explicamos como funciona a reserva, quando ir, onde observar e o que levar.
O que é o Dark Sky Alqueva
O Dark Sky Alqueva é uma reserva de céu escuro que abrange vários concelhos à volta do grande lago, de um lado e do outro da fronteira. Do lado português, inclui municípios como Reguengos de Monsaraz, Mourão, Moura, Portel, Alandroal, Barrancos, Évora, Mértola, Redondo e Serpa. Em 2018, a reserva tornou-se também o primeiro destino Starlight transfronteiriço, ao juntar municípios espanhóis vizinhos.
A razão de ser deste céu é simples: há pouca gente, pouca indústria e poucas cidades grandes por perto. A planície alentejana tem horizontes largos, o clima é seco durante grande parte do ano e há muitas noites limpas. Além disso, várias localidades da reserva trocaram a iluminação pública por candeeiros virados para o chão, para reduzir a luz que se perde para o céu.
O resultado é um céu onde, longe das povoações, se distinguem milhares de estrelas, a faixa leitosa da Via Láctea, as nebulosas mais brilhantes e, com paciência, a luz ténue de outras galáxias.
Observar estrelas no Alentejo: o observatório da Cumeada
O centro da reserva é o observatório oficial do Dark Sky Alqueva, na pequena aldeia da Cumeada, no concelho de Reguengos de Monsaraz, a poucos quilómetros de Monsaraz. Funciona numa antiga escola primária recuperada pela câmara municipal, e é daqui que partem muitas das atividades organizadas.
As sessões de observação são guiadas por guias certificados da reserva e incluem uma introdução ao céu da noite, a olho nu, seguida de observação com telescópios. Ver os anéis de Saturno, as crateras da Lua ou um enxame de estrelas pela primeira vez através de uma ocular é uma daquelas experiências que ficam para a vida. Segundo o site oficial do Dark Sky Alqueva, as sessões são apenas por marcação prévia e dependem do tempo e das condições do céu; é lá que deve confirmar dias, horários e preços antes de ir.
Além do observatório, várias empresas e alojamentos da região propõem sessões de astronomia, passeios noturnos, fotografia do céu e até observação do sol durante o dia, com filtros próprios. Há também alojamentos certificados que oferecem condições especiais para quem quer ficar acordado a olhar para cima.
Monsaraz, de dia e de noite
Mesmo sem estrelas, Monsaraz merecia a viagem. A vila amuralhada, com as suas ruas de xisto e casas caiadas, ocupa o topo de um monte com vista sobre o lago do Alqueva e, do outro lado, sobre Espanha. O castelo, na ponta da vila, tem uma praça de armas que já serviu de praça de touros, e as muralhas são o melhor miradouro da região ao pôr do sol.
À noite, quando os visitantes de um dia vão embora, Monsaraz muda de ritmo. As ruas ficam vazias, as luzes da vila são poucas e discretas, e basta afastar-se um pouco das muralhas para o céu se encher de estrelas. Dormir na vila ou num monte ali perto é a melhor forma de aproveitar as duas faces do lugar.
O lago, a planície e as aldeias à volta
A albufeira do Alqueva, um dos maiores lagos artificiais da Europa, trouxe à região uma paisagem nova de água, ilhas e penínsulas entre olivais e montados. Durante o dia, há passeios de barco, praias fluviais e caminhos à beira da água. À volta, aldeias como Mourão, Telheiro, Campinho ou a própria Cumeada mantêm o ritmo calmo do Alentejo. A poucos quilómetros, em São Pedro do Corval, fica a maior comunidade oleira da Península Ibérica, que já visitámos em O Alentejo não se visita. Escuta-se.
Quando ir: estação, lua e tempo
A melhor altura do ano
O céu do Alqueva pode ser observado durante todo o ano, mas cada estação tem as suas vantagens.
- Verão: é o pico da procura e por boas razões. As noites são quentes e longas o suficiente, e a parte mais brilhante da Via Láctea, na direção do centro da galáxia, está bem visível. Em meados de agosto há ainda a chuva de estrelas das Perseidas, a mais popular do ano.
- Primavera e outono: temperaturas agradáveis, menos gente e céus muitas vezes muito limpos. Boas épocas para combinar estrelas com caminhadas de dia.
- Inverno: noites muito longas e frias, com constelações espetaculares como Orionte e as Plêiades. Quem não se importa com o frio tem céus excelentes e muito sossego.
A fase da lua conta mais do que o mês
Para ver a Via Láctea e os objetos mais ténues, o fator mais importante é a lua. Uma lua cheia ilumina o céu como um candeeiro e apaga quase tudo o que não seja muito brilhante. Escolha datas à volta da lua nova, ou noites em que a lua nasça tarde ou se ponha cedo. A lua em quarto crescente, ao início da noite, é por outro lado ótima para observar crateras ao telescópio, por isso uma sessão guiada vale a pena em qualquer fase.
O tempo
As nuvens decidem tudo. Veja a previsão na véspera e no próprio dia, e tenha alguma flexibilidade: numa estadia de duas ou três noites, a probabilidade de apanhar pelo menos um céu limpo é muito maior.
Como aproveitar uma noite de estrelas
- Afaste-se das luzes: mesmo numa reserva de céu escuro, a iluminação de uma aldeia faz diferença. Bastam algumas centenas de metros para o céu melhorar muito.
- Dê tempo aos olhos: a visão noturna demora cerca de 20 a 30 minutos a adaptar-se ao escuro. Evite olhar para o ecrã do telemóvel; se precisar de luz, use uma lanterna de luz vermelha.
- Deite-se: uma manta ou uma cadeira reclinável tornam a observação muito mais confortável do que ficar de pescoço dobrado.
- Comece a olho nu: aprenda a reconhecer duas ou três constelações antes de pegar em binóculos. Uns binóculos simples já mostram enxames de estrelas e as manchas mais brilhantes da Via Láctea.
- Fotografia: para fotografar o céu precisa de um tripé e de uma câmara ou telemóvel com modo noturno de exposição longa. Muitas sessões guiadas incluem dicas de fotografia.
- Respeite o escuro: não acenda faróis nem lanternas brancas perto de outros observadores, e mantenha o silêncio.
Antes de ir
- Reservas: marque sessões no observatório ou com empresas certificadas com antecedência, sobretudo no verão e em datas de lua nova.
- O que levar: roupa quente mesmo no verão (as noites na planície arrefecem depressa), manta, lanterna de luz vermelha, binóculos se tiver, água e algo para petiscar.
- Onde dormir: em Monsaraz ou num monte de turismo rural da zona, de preferência com pouca iluminação exterior. Alguns alojamentos têm certificação Dark Sky.
- Quanto tempo: pelo menos duas noites, para ter margem se uma delas tiver nuvens.
- De dia: passeio de barco no Alqueva, a vila de Monsaraz, as oficinas de olaria de São Pedro do Corval e os vinhos da região de Reguengos.
- Condução noturna: as estradas secundárias são escuras e há animais na estrada; conduza devagar.
Do céu ao barro
Uma estadia em Monsaraz junta um dos céus mais escuros de Portugal a uma das terras de artesanato mais vivas do Alentejo. Para conhecer o lado diurno desta região, entre rodas de oleiro, fornos e mesas compridas, leia O Alentejo não se visita. Escuta-se., a nossa visita a São Pedro do Corval, a poucos minutos das muralhas de Monsaraz.