O inverno é a estação mais secreta do Alentejo: azeite acabado de sair do lagar, talhas abertas por São Martinho, Évora sem filas, nevoeiro em Marvão e noites de estrelas sobre o Alqueva. Dez programas para aproveitar os dias curtos.
O Alentejo no inverno é a versão mais íntima de uma região que no verão se esconde do calor. Entre novembro e fevereiro, a planície fica verde, as chaminés voltam a fumegar, os lagares trabalham noite e dia e as adegas abrem as talhas do vinho novo. Os dias são curtos, é verdade, mas isso só obriga a escolher bem: uma manhã de caminhada, um almoço demorado, uma tarde numa vila amuralhada e uma noite à lareira ou debaixo de um céu cheio de estrelas. Reunimos dez programas para uma escapadinha no Alentejo no inverno, do Alto Alentejo ao Guadiana, que funcionam tanto num fim de semana como numa semana inteira.
Porque escolher o Alentejo em dezembro, janeiro ou fevereiro
No verão, o Alentejo vive-se de madrugada e ao fim do dia, porque o meio da tarde é para a sombra. No inverno, é ao contrário: as horas de sol são as melhores, e as manhãs frias e limpas têm uma luz que deixa a cal das casas quase azul. Chove de vez em quando, sobretudo no norte da região, mas há longas semanas de céu aberto, com geada ao amanhecer e tardes agradáveis à soalheira.
É também a estação em que o campo trabalha. A apanha da azeitona, a montanheira dos porcos no montado, a poda das vinhas e a abertura das talhas marcam o calendário. Para quem gosta de comer bem, não há altura melhor. E para quem procura sossego, o Alentejo em dezembro e janeiro, fora das festas, tem vilas inteiras quase só para si.
1. Évora sem filas
Évora, Património Mundial desde 1986, é uma cidade para se percorrer devagar, e o inverno é quando isso é mais fácil. O templo romano, a sé, as ruas estreitas que descem para a Praça do Giraldo e a Capela dos Ossos, na Igreja de São Francisco, visitam-se sem a pressão dos grupos do verão. Ao fim da tarde, a cidade enche-se de estudantes e o cheiro a castanhas assadas mistura-se com o das lareiras. Fique a dormir dentro das muralhas e jante numa das tascas que servem os pratos de sempre.
2. São Martinho e as talhas da Vidigueira
Em Vila de Frades, no concelho da Vidigueira, faz-se vinho em talhas de barro como no tempo dos romanos. Por tradição, à volta do dia de São Martinho, a 11 de novembro, as adegas abrem algumas talhas e dão a provar o vinho novo, fermentado poucas semanas antes. Quando o dia calha a meio da semana, há adegas que fazem a abertura no fim de semana seguinte. Uma prova de vinho de talha com um petisco, numa adega de paredes caiadas e chão de terra batida, é uma das experiências mais alentejanas que se podem ter. Confirme com a câmara municipal ou com os produtores as datas e as adegas abertas nesse ano.
3. Azeite novo no lagar
O fim do outono e o início do inverno são a época da apanha da azeitona. Nos lagares, sobretudo à volta de Moura, Serpa, Campo Maior e Elvas, o azeite novo sai verde e turvo, com um picante que arranha a garganta. Muitos produtores organizam visitas e provas nesta altura, e alguns lagares tradicionais transformados em museus explicam como se fazia antes das máquinas. O melhor petisco do inverno é pão alentejano torrado, regado com azeite do dia e uma pitada de sal.
4. Caminhar no montado durante a montanheira
Entre o fim de outubro e o fim de fevereiro, os porcos de raça alentejana andam soltos no montado a comer bolota de azinheira e lande de sobreiro. É a montanheira, o período de engorda que dá aos presuntos e às paletas o sabor que os torna famosos. Caminhar num montado nesta altura, com o chão coberto de folhas e os porcos pretos a fugir entre as árvores, é uma lição de paisagem e de economia rural. Muitas herdades com turismo rural propõem passeios a pé ou de bicicleta pelos seus caminhos.
5. Monsaraz e as noites de estrelas
Monsaraz, no alto de um monte sobre a albufeira do Alqueva, é bonita a qualquer hora, mas o inverno tem um trunfo: noites longas e, muitas vezes, muito limpas. A região do Alqueva foi certificada em 2011 como o primeiro destino turístico Starlight do mundo, e várias empresas organizam sessões de observação de estrelas, incluindo no observatório da aldeia da Cumeada, em Reguengos de Monsaraz. Leve roupa a sério: as noites de inverno na planície são frias. Mais informação no site oficial do Dark Sky Alqueva.
6. Barro e oficinas em São Pedro do Corval
A poucos quilómetros de Monsaraz fica São Pedro do Corval, a maior comunidade oleira da Península Ibérica. No inverno, as oficinas trabalham ao ritmo de sempre, com os fornos acesos e as peças a secar em prateleiras. Entrar, conversar, ver a roda a girar e escolher um prato ou uma tigela para levar para casa é um programa perfeito para uma manhã fria. Contámos como é esta aldeia em O Alentejo não se visita. Escuta-se.
7. Marvão e Castelo de Vide entre o nevoeiro
No norte do Alentejo, a serra de São Mamede muda a paisagem: há castanheiros, carvalhos, ribeiras e, nas manhãs de inverno, um mar de nuvens que deixa Marvão a flutuar por cima do vale. Do castelo vê-se, nos dias limpos, uma enorme extensão de Portugal e de Espanha. Castelo de Vide, ali ao lado, tem uma judiaria bem preservada, fontes e ruas brancas em escada. É o melhor sítio da região para quem gosta de um frio a sério e de uma lareira ao fim do dia.
8. Elvas, a cidade-quartel
Elvas, junto à fronteira, foi classificada como Património Mundial pela UNESCO em 2012 pelas suas fortificações abaluartadas, das mais completas da Europa. O Forte da Graça, no alto de um monte, e o Aqueduto da Amoreira são impressionantes com a luz baixa do inverno. Termine a visita com uma sopa e uma sobremesa de ameixas de Elvas, um doce tradicional da cidade.
9. Serpa, o queijo e o Guadiana
Serpa é terra de queijo, de cante alentejano e de muralhas com um aqueduto encostado. Na segunda metade de fevereiro, costuma receber a Feira do Queijo do Alentejo, que junta queijarias de toda a região; confirme a data no site da Câmara Municipal de Serpa. A partir daqui, vale a pena descer até Mértola, uma vila-museu pendurada sobre o Guadiana, e procurar o Pulo do Lobo, onde o rio se aperta entre rochedos. Depois de uma semana de chuva, a força da água é impressionante.
10. Uma noite à lareira num monte
O último programa é o mais simples: escolher um monte alentejano, acender a lareira e não fazer mais nada. Muitos turismos rurais servem jantares caseiros no inverno, e é à mesa que o Alentejo se explica melhor. Açorda, migas com carne de porco, sopa de cação, ensopado de borrego, carne de porco à alentejana e, para sobremesa, sericaia com ameixa de Elvas. Se houver cante, melhor ainda: este canto coral, Património Imaterial da Humanidade desde 2014, ouve-se em tabernas e associações de muitas aldeias, e no inverno chega também com as janeiras.
Antes de ir
- Clima: dias frescos e muitas vezes soalheiros, noites frias com geada no interior. O norte do Alentejo é mais chuvoso e frio do que o Baixo Alentejo.
- O que levar: casaco quente, camadas, gorro para as noites de estrelas e calçado que aguente lama nos caminhos de terra.
- Horários: os dias são curtos; concentre as visitas entre o fim da manhã e o fim da tarde e deixe as noites para jantares e estrelas.
- Onde dormir: prefira alojamento com lareira ou bom aquecimento. Muitas casas antigas de paredes grossas são frescas no verão e frias no inverno.
- Restaurantes: em aldeias pequenas, muitos fecham um ou dois dias por semana e alguns tiram férias em janeiro. Telefone antes.
- Escapadinha de dois dias: Évora mais Monsaraz e São Pedro do Corval. Com três ou quatro dias, junte Marvão e Castelo de Vide, ou Vidigueira, Serpa e Mértola.
Ouvir o Alentejo devagar
O inverno é, talvez, a estação em que o Alentejo mais se parece consigo próprio: silencioso, generoso à mesa e feito de gente que trabalha a terra e o barro como sempre trabalhou. Se quer começar pela aldeia onde a olaria ainda é ofício de família, leia O Alentejo não se visita. Escuta-se., a nossa visita às oficinas de São Pedro do Corval, e use-a como ponto de partida para a sua escapadinha.