O bilhete geral do Vale dos Reis dá direito a três túmulos, e há túmulos com bilhete próprio, como o de Tutankhamon. Explicamos como funciona, que túmulos escolher, como encaixar o templo de Hatshepsut e a melhor hora para ir.
O Vale dos Reis é um desfiladeiro seco na margem ocidental de Luxor onde, durante cerca de quinhentos anos, os faraós do Império Novo mandaram escavar os seus túmulos na rocha. Hoje é uma das visitas mais impressionantes do Egito, mas também uma das que mais dúvidas levanta: o bilhete geral só dá direito a três túmulos, alguns dos mais famosos pedem um bilhete à parte e a lista de túmulos abertos vai mudando. Neste guia explicamos como funcionam os bilhetes, que túmulos valem a pena, como juntar o templo de Hatshepsut no mesmo dia e a que horas ir para evitar o calor e as multidões.
Porque é que os reis foram enterrados aqui
Os faraós das primeiras dinastias construíram pirâmides, visíveis a quilómetros de distância e, por isso mesmo, fáceis de saquear. No Império Novo, com a capital religiosa em Tebas, a atual Luxor, a estratégia mudou. Os túmulos passaram a ser corredores escavados fundo na montanha, escondidos num vale fechado, dominado por um pico em forma de pirâmide natural, a montanha de el-Qurn.
Por dentro, cada túmulo é um livro aberto. As paredes estão cobertas de textos e pinturas que guiam o rei na viagem noturna do sol pelo mundo inferior, com deuses de cabeça de animal, barcas, serpentes e as horas da noite desenhadas em cores que, em alguns casos, parecem acabadas de pintar. A maior parte dos túmulos foi saqueada ainda na Antiguidade, e é por isso que a descoberta do túmulo quase intacto de Tutankhamon, em 1922, se tornou tão famosa.
Como funcionam os bilhetes do Vale dos Reis
O sistema parece complicado, mas resume-se a três ideias:
- O bilhete geral dá acesso a três túmulos, à escolha, entre os que estão abertos nesse dia. Se quiser ver mais, compra outro bilhete geral.
- Alguns túmulos têm bilhete próprio, que se compra além do geral. É o caso do túmulo de Tutankhamon (KV62), do de Seti I (KV17) e do de Ramsés VI (KV9). Não se podem visitar só com o bilhete geral, e o bilhete geral é necessário de qualquer forma.
- Os túmulos abertos vão rodando para proteger as pinturas da humidade e do desgaste provocados pelos visitantes. A lista do dia está afixada à entrada.
Há ainda um pequeno comboio elétrico que liga o centro de visitantes à entrada do vale, pago à parte. Não é obrigatório, mas poupa uma caminhada ao sol.
Os preços são em libras egípcias e têm subido com frequência. Em vez de confiar em valores de blogues antigos, confirme o preço em vigor no site oficial de bilhetes do Ministério do Turismo e Antiguidades, Egypt Monuments, ou na bilheteira. O ministério tem vindo a alargar a venda de bilhetes eletrónicos a mais monumentos, incluindo o Vale dos Reis, o que pode poupar tempo nas manhãs mais concorridas.
Nas visitas guiadas, os bilhetes costumam estar incluídos. Na nossa experiência O Nilo em felucca, por exemplo, a manhã no Vale dos Reis inclui bilhetes para três câmaras, escolhidas pelo egiptólogo em função do que está aberto nesse dia.
Que túmulos ver no Vale dos Reis
Com três túmulos no bilhete geral, a escolha conta. Estes são alguns dos que costumam estar na lista e que justificam a visita, se estiverem abertos quando lá for.
Os que entram no bilhete geral
- Ramsés IV (KV2): fica logo à entrada e é uma boa primeira escolha. Corredor largo, pinturas bem conservadas e um sarcófago de granito enorme na câmara funerária.
- Ramsés III (KV11): um dos mais longos e variados, com câmaras laterais decoradas com cenas do quotidiano, incluindo os famosos harpistas.
- Ramsés IX (KV6): muito próximo da entrada, com um corredor comprido e um teto astronómico na câmara do fundo.
- Merenptah (KV8): desce fundo na rocha e termina numa câmara impressionante com a tampa do sarcófago esculpida.
- Tutmés III (KV34): para quem tem boas pernas. Chega-se por uma escada metálica íngreme numa fenda da montanha, e a decoração, com figuras simples, quase em traço, é diferente de tudo o resto.
- Horemheb (KV57): cores vivas sobre fundo cinzento azulado e cenas que mostram o túmulo em diferentes fases de decoração.
Os que pedem bilhete à parte
- Tutankhamon (KV62): é pequeno e a decoração limita-se à câmara funerária, mas é o único túmulo do vale onde o rei ainda repousa: a múmia de Tutankhamon está exposta numa vitrina climatizada. O tesouro, esse, está no Cairo, no Grande Museu Egípcio.
- Seti I (KV17): o túmulo mais longo e, para muitos, o mais bonito do vale, com decoração do princípio ao fim. O bilhete é o mais caro, mas quem gosta de arte egípcia raramente se arrepende.
- Ramsés VI (KV9): se só puder pagar um bilhete extra, este é muitas vezes o mais equilibrado. As paredes e os tetos estão totalmente pintados, com a deusa Nut a engolir e dar à luz o sol, de ponta a ponta da câmara funerária.
Uma novidade no Vale Ocidental
Do outro lado da montanha, no chamado Vale Ocidental, o túmulo de Amenhotep III (WV22) reabriu ao público em outubro de 2025, depois de mais de vinte anos de restauro, segundo a imprensa internacional. Fica afastado do vale principal e exige transporte próprio, por isso é sobretudo uma opção para quem já conhece os túmulos mais conhecidos e quer algo mais tranquilo.
Que combinação escolher
Se for a primeira visita e tiver pouco tempo, uma combinação clássica é Ramsés IV, Ramsés III e Merenptah no bilhete geral, mais Ramsés VI como extra. Se o orçamento permitir só um extra e tiver curiosidade histórica, Tutankhamon é o mais simbólico; se procurar a decoração mais rica, Seti I é imbatível.
Não tente ver tudo. Mais do que quatro ou cinco túmulos no mesmo dia tornam-se repetitivos e cansativos, e o calor dentro dos corredores é abafado.
Luxor margem oeste: o resto do dia
O Vale dos Reis é a peça central da Luxor margem oeste, mas não está sozinho. Muitas pessoas juntam no mesmo dia:
- O templo de Hatshepsut, em Deir el-Bahari, do outro lado da montanha. Os três terraços escavados na falésia, construídos para a rainha-faraó, são uma das imagens mais fotogénicas do Egito. Tem bilhete próprio.
- Os Colossos de Mémnon, duas estátuas sentadas gigantes à beira da estrada, que se veem em poucos minutos.
- Medinet Habu, o templo funerário de Ramsés III, com relevos profundos e cores ainda visíveis, e muito menos gente.
- O Vale das Rainhas, onde está o túmulo de Nefertari, considerado um dos mais belos do Egito, com bilhete à parte.
Com tudo isto, um dia não chega para a margem oeste inteira. Se puder, divida-a por duas manhãs.
A que horas ir
O vale abre cedo e a regra de ouro é ir à abertura, sobretudo entre março e outubro. O sol bate a pique no vale, que funciona quase como um forno de pedra a partir do fim da manhã. Logo cedo, há também menos grupos e é mais fácil ter um corredor só para si. O nosso Guia do Egito para lá das pirâmides dá o mesmo conselho: chegar à abertura para evitar grupos.
Quem prefere a tarde encontra, por vezes, menos gente nos túmulos com bilhete extra, mas tem menos margem antes do fecho.
Fotografias e regras dentro dos túmulos
Nos últimos anos, as regras sobre fotografias mudaram várias vezes. De forma geral, as fotografias com telemóvel, sem flash, são aceites, mas o flash é sempre proibido, e há túmulos ou situações em que câmaras maiores podem ter regras diferentes. Confirme na bilheteira no próprio dia. Também não se toca nas paredes nem se encosta a mochila às pinturas: muitas estão protegidas por vidros, mas nem todas.
Dentro dos túmulos há guardas que, por vezes, oferecem acesso a zonas fechadas ou "fotografias especiais" em troca de dinheiro. Recuse com simpatia: além de prejudicar a conservação, é proibido.
Antes de ir
- Bilhetes: compre o bilhete geral e os extras de uma vez; confirme preços e túmulos abertos no site oficial ou na bilheteira.
- Escolha: decida antes quais os três túmulos do bilhete geral e se vale a pena um extra (Ramsés VI, Tutankhamon ou Seti I).
- Hora: chegue à abertura; leve água, chapéu e protetor solar, porque o vale tem pouca sombra.
- Calçado: sapatos fechados e confortáveis; há rampas, degraus e, em Tutmés III, uma escada íngreme.
- Dinheiro: leve libras egípcias em notas pequenas para o comboio elétrico, casas de banho e gorjetas.
- Guia: os guias não podem explicar dentro dos túmulos, por isso as explicações fazem-se cá fora, antes de entrar. Vale a pena ter um egiptólogo para perceber o que se está a ver.
- Tempo: três horas chegam para o vale; meio dia, se juntar o templo de Hatshepsut.
Viva a margem dos reis com um egiptólogo
Se quer ver o Vale dos Reis sem se preocupar com bilhetes nem escolhas, a experiência O Nilo em felucca junta Karnak ao amanhecer, três túmulos do vale com um egiptólogo e uma tarde de vela no rio, em grupos de até oito pessoas. Para planear o resto da viagem, veja a nossa página do Egito.