A ilha mais verde de Cabo Verde só se percebe a pé. Os trilhos que valem a viagem, da cratera da Cova ao Vale do Paul e ao caminho de Fontainhas, e tudo o que precisa de saber para lá chegar a partir do Mindelo.
Quem chega a Santo Antão pela primeira vez costuma ficar calado durante uns bons minutos. Depois do castanho seco de São Vicente, do outro lado do canal, aparece uma ilha de montanhas a pique, vales cobertos de socalcos e aldeias penduradas onde parece impossível construir. Os trilhos de Santo Antão são a razão de ser desta viagem: a ilha não se visita de carro, percorre-se a pé, de vale em vale, por caminhos calcetados que os habitantes usam há gerações. Se só tiver tempo para dois percursos, escolha a descida da cratera da Cova ao Vale do Paul e o caminho costeiro de Ponta do Sol até Fontainhas (ou até Cruzinha, para quem tem pernas). Para lá chegar, voa-se até São Vicente e atravessa-se o canal de ferry, a partir do Mindelo, em cerca de uma hora.
Uma ilha feita para caminhar
Santo Antão é a ilha mais a noroeste de Cabo Verde e uma das mais montanhosas do arquipélago. Os ventos alísios trazem humidade do norte e descarregam-na nas encostas viradas ao mar, e é por isso que a metade norte da ilha é verde, com cana-de-açúcar, mandioca, bananeiras e inhame em socalcos, enquanto o sul é árido e lunar. A estrada que liga os dois lados atravessa literalmente essa fronteira.
O que torna as caminhadas em Santo Antão tão especiais é que os trilhos não foram feitos para turistas. São os caminhos antigos que ligavam as aldeias antes de haver estradas, muitos deles empedrados à mão, com muros de pedra seca e escadarias abertas na rocha. Ainda hoje há quem os percorra com sacos de mercearia à cabeça ou com um burro carregado de lenha. Caminhar aqui é cruzar-se com a vida da ilha, cumprimentar quem passa e, com sorte, ser convidado para um café ou um copo de grogue à porta de casa.
Como chegar a Santo Antão: o ferry Mindelo–Santo Antão
Santo Antão não tem aeroporto em funcionamento. O antigo aeródromo perto de Ponta do Sol está inativo desde os anos 90 e, embora o Governo de Cabo Verde tenha assinado em 2026 um acordo para estudar e construir um novo aeroporto perto de Porto Novo, por agora a única entrada na ilha continua a ser pelo mar.
O caminho habitual é este:
- Voar até São Vicente. O aeroporto Cesária Évora, a poucos quilómetros do Mindelo, recebe voos diretos de Lisboa, com uma duração de cerca de quatro horas. Também se pode chegar a São Vicente a partir de outras ilhas, mas os voos domésticos em Cabo Verde têm tido muitas mudanças de operador e de horário, por isso convém confirmar tudo perto da data.
- Apanhar o ferry Mindelo–Santo Antão. O barco sai do porto do Mindelo e chega a Porto Novo, no sul de Santo Antão, em cerca de uma hora. Há várias travessias por dia, de manhã e à tarde, asseguradas sobretudo pela CV Interilhas, mas os horários mudam ao longo do ano e há dias em que um dos barcos faz outras rotas. Confirme sempre a programação em vigor no site do operador ou na bilheteira do porto.
- Subir até ao norte. Em Porto Novo esperam os aluguers, carrinhas partilhadas que seguem para Ribeira Grande, Ponta do Sol e Paul. Há duas opções: a estrada da costa, mais rápida, e a antiga Estrada da Corda, que sobe pelas montanhas, passa junto à cratera da Cova e desce para o norte com vistas tremendas. Se não tiver pressa, peça ao motorista para ir pela Corda.
Uma nota sobre o mar: o canal entre São Vicente e Santo Antão é conhecido pelo vento e pela ondulação, sobretudo à tarde. Quem enjoa deve comer pouco antes de embarcar, sentar-se no meio do barco e preferir a travessia da manhã.
Os melhores trilhos de Santo Antão
Cova–Paul: da cratera ao vale mais verde
É o clássico, e com razão. O percurso começa na borda da cratera da Cova, a cerca de 1100 metros de altitude, um antigo vulcão cujo fundo plano é cultivado como uma horta gigante. Da borda, o trilho atira-se pelo outro lado da montanha e desce para o Vale do Paul em ziguezague, com perto de mil metros de desnível até lá abaixo.
A descida da Cova Paul é das mais bonitas de Cabo Verde. Nos primeiros minutos, quando há nevoeiro, caminha-se dentro das nuvens. Depois o vale abre-se de repente: encostas forradas de verde, socalcos de cana e de café, casas coloridas agarradas ao declive e, ao fundo, o azul do Atlântico. A meio caminho começam as aldeias, e com elas os trapiches onde se espreme a cana para fazer grogue, a aguardente da ilha.
Conte com três a cinco horas a descer, consoante o ritmo e as paragens. É um trilho de dificuldade moderada, mas a descida contínua castiga os joelhos: bastões ajudam muito. O ideal é apanhar um aluguer de manhã cedo até à Cova (na estrada da Corda) e descer com tempo, terminando junto ao mar, em Vila das Pombas.
Ponta do Sol–Fontainhas–Cruzinha: o caminho da costa norte
Se a Cova é o trilho das montanhas, este é o trilho do mar. Parte de Ponta do Sol, a vila mais a norte da ilha, e sobe por um caminho escavado na falésia até Fontainhas, uma aldeia de casas coloridas empoleiradas numa crista, por cima de um vale em socalcos. É dos lugares mais fotografados de Cabo Verde e chega-se lá em pouco mais de uma hora de caminhada.
Daí, quem quiser continua para oeste pelo caminho costeiro, passando por Corvo e Formiguinhas, até à aldeia piscatória de Cruzinha. É um percurso longo, de cinco a seis horas para o trajeto completo, com subidas e descidas constantes e o oceano sempre a bater lá em baixo. Não é técnico, mas exige boa forma, água suficiente e respeito pelas falésias. Em Cruzinha há aluguers de regresso, sobretudo à tarde; confirme antes de partir como vai voltar.
Ribeira da Torre e o planalto da Corda
Menos conhecido e por isso mais sossegado, o vale de Ribeira da Torre corre para norte desde as montanhas até Ribeira Grande, passando por pequenos povoados como Xoxo. Há várias formas de o fazer, mas a mais bonita é começar no alto, na zona da Corda e do planalto de Coculi, e descer pelos caminhos antigos até ao vale. Vê-se a outra face da ilha agrícola: levadas, hortas de inhame, palmeiras e montanhas recortadas como dentes.
É um bom trilho para o segundo ou terceiro dia, quando as pernas já se habituaram ao terreno. Quem preferir um passeio mais curto pode limitar-se a caminhar no fundo do vale e voltar.
Outras caminhadas em Santo Antão
- Ribeira Grande e os vales à volta. A segunda maior povoação da ilha é o ponto de partida para vários passeios curtos pelos vales vizinhos, bons para meio-dia.
- Estrada da Corda a pé. Alguns troços da estrada antiga, calcetada à mão, fazem-se bem a pé, com miradouros sobre os vales do norte.
- Sul e oeste. O lado seco da ilha, para lá de Porto Novo, tem paisagens desérticas e caminhos muito menos frequentados. Pede guia e logística própria.
Quando ir e quanto tempo ficar
Santo Antão faz-se bem quase todo o ano, mas os meses mais secos e amenos, entre o fim do outono e a primavera, são os preferidos para caminhar: dias de sol, temperaturas suaves nas montanhas e vales ainda verdes depois das chuvas do fim do verão. (Se está a decidir quando viajar para Cabo Verde em geral, isso dava outro artigo: aqui interessa-nos o trilho.)
Quanto ao tempo, três dias inteiros na ilha são o mínimo para fazer os dois grandes trilhos com calma. Com quatro ou cinco, junta Ribeira da Torre, um dia de descanso em Ponta do Sol e alguma margem para o mar ou o tempo trocarem os planos. Dormir no norte, em Ponta do Sol ou no Vale do Paul, poupa muitas horas de estrada.
Guia local ou por conta própria?
Os trilhos principais estão bem marcados no terreno e são muito usados, por isso é possível fazê-los sozinho com um mapa descarregado no telemóvel. Ainda assim, há boas razões para ir com um guia da ilha: tratam dos transportes de ida e volta (o maior quebra-cabeças de quem caminha em percursos lineares), conhecem os atalhos e o estado dos caminhos depois das chuvas e abrem portas que de outra forma ficavam fechadas, de uma casa onde se almoça a um trapiche em plena moagem.
Seja qual for a opção, há regras simples: não sair dos caminhos nos troços de falésia, não caminhar com chuva forte (há derrocadas), avisar alguém do percurso e da hora prevista de chegada e começar cedo, para não apanhar o calor do meio-dia nas subidas.
Antes de ir
- Calçado: botas ou sapatilhas de trilho com boa sola. O empedrado molhado escorrega.
- Bastões: quase indispensáveis para a descida da Cova ao Paul.
- Água e comida: leve pelo menos dois litros por pessoa. Nas aldeias há pequenas mercearias, mas não conte com elas em todos os troços.
- Proteção: chapéu, protetor solar e um casaco leve para as zonas altas, onde o nevoeiro arrefece o ar.
- Dinheiro: escudos cabo-verdianos em notas pequenas para aluguers, cafés e mercearias. Fora das vilas é raro haver multibanco.
- Ferry: confirme os horários do ferry Mindelo–Santo Antão em vigor e evite marcar a travessia de regresso para o dia do voo.
- Mapa offline: descarregue os trilhos antes, porque a rede de telemóvel falha nos vales mais fundos.
Caminhar Santo Antão com a Iguana
Se quer viver estes trilhos sem pensar em horários de aluguer nem em onde dormir, a nossa experiência Trilhos de Santo Antão junta tudo em três dias e duas noites, em grupos de no máximo oito pessoas: a travessia de barco desde São Vicente, a primeira caminhada até Fontainhas, um dia inteiro da borda da cratera da Cova até ao vale verde de Ribeira Grande e uma manhã lenta em Ponta do Sol, com noites em pensão familiar e um guia da ilha sempre connosco. Para combinar a caminhada com o resto do arquipélago, veja também a nossa página de Cabo Verde.