O salto da bota italiana tem casas em forma de cone, uma vila pendurada sobre o Adriático e uma cidade barroca cor de mel. Um roteiro pela Puglia, de Bari a Lecce, com Alberobello, Polignano a Mare e Ostuni pelo caminho.
Há uma Itália que ainda se descobre sem multidões de cartão-postal, e fica no salto da bota. A Puglia é uma região comprida e plana, virada para o Adriático e para o Jónico, com olivais que parecem não ter fim, vilas brancas no alto de colinas e uma cozinha simples que faz da massa fresca e do azeite uma religião. Para quem se pergunta o que visitar na Puglia, três nomes respondem quase a tudo: Alberobello, com as suas casas em forma de cone; Polignano a Mare, pendurada sobre falésias; e Lecce, uma cidade barroca esculpida em pedra cor de mel. Este roteiro liga-os, com Bari como porta de entrada e algumas paragens pelo meio.
Porquê ir à Puglia
A Puglia tem uma coisa rara em Itália: espaço. As distâncias são curtas, as estradas são planas e as vilas ficam suficientemente perto umas das outras para se verem várias no mesmo dia. Não há uma grande atração que monopolize a viagem, como o Coliseu em Roma ou os canais em Veneza. Há antes uma sucessão de lugares pequenos e bonitos, ligados por olivais centenários e muros de pedra seca.
Há também o mar. A costa da Puglia é das mais extensas de Itália, e alterna enseadas rochosas de água transparente, como as de Polignano, com praias de areia mais a sul, no Salento. E há a mesa: orecchiette, burrata, taralli, pão de Altamura, vinhos como o primitivo e o negroamaro. Come-se bem em qualquer sítio, e sem cerimónias.
Bari: o começo da viagem
Quase todas as viagens à Puglia começam em Bari, a capital da região e o principal aeroporto. Vale a pena dar-lhe pelo menos uma tarde. Bari Vecchia, a cidade velha, é um emaranhado de ruelas onde a vida acontece à porta de casa. Nalgumas delas, as mulheres ainda fazem orecchiette à mão em mesas postas na rua, uma cena que se tornou símbolo da cidade.
No coração do bairro fica a Basílica de São Nicolau, um dos grandes templos românicos do sul de Itália e destino de peregrinação tanto para católicos como para ortodoxos, porque guarda as relíquias do santo. Ao fim do dia, o passeio marítimo enche-se de gente a caminhar devagar, como manda a tradição italiana da passeggiata.
Polignano a Mare: a vila sobre o Adriático
A curta distância de Bari, para sul, Polignano a Mare é a imagem que mais circula da Puglia, e com razão. A vila antiga está construída no topo de falésias calcárias que caem a pique sobre um mar de um azul quase impossível, cheias de grutas escavadas pela água.
O ponto mais fotografado é a Lama Monachile, uma pequena enseada de seixos encaixada entre duas paredes de rocha e atravessada por uma ponte da época dos Bourbon. Daqui partem, em algumas edições, os saltos do Red Bull Cliff Diving, a competição de saltos de altura que já fez de Polignano um nome conhecido em todo o mundo.
Polignano é também a terra natal de Domenico Modugno, o cantor de "Nel blu dipinto di blu", a canção que o mundo inteiro conhece como "Volare". No passeio marítimo, uma estátua de bronze mostra-o de braços abertos, virado para o mar. Para além disso, o melhor é perder-se no centro histórico: ruas estreitas e brancas, varandas sobre o abismo e versos pintados nas escadas e nas portas.
Uma dica: Polignano é pequena e enche-se muito no verão, sobretudo ao fim de semana. Se puder, durma lá uma noite e aproveite a vila ao início da manhã ou depois de os visitantes do dia partirem.
Alberobello e o vale d'Itria
Subindo para o interior, a paisagem muda. Entramos no vale d'Itria, uma planície ondulada de vinhas, olivais e quintas, onde se espalham os trulli, as construções de pedra seca com telhados cónicos que são a imagem mais original da Puglia.
A capital dos trulli
Alberobello é o lugar onde os trulli se concentram como em nenhum outro. Os seus dois bairros históricos, Rione Monti e Aia Piccola, estão classificados como património mundial pela UNESCO desde 1996. Caminhar por eles é como entrar num conto: ruas inclinadas, paredes caiadas e telhados de pedra cinzenta rematados por pináculos, muitos com símbolos pintados a branco.
Rione Monti é o bairro mais visitado, cheio de lojas, cafés e pequenos museus instalados dentro de trulli. Aia Piccola, do outro lado, é mais residencial e silencioso, e ajuda a perceber como estas casas ainda são habitadas. Não deixe de espreitar o Trullo Sovrano, o único trullo de dois pisos da vila, hoje transformado em museu.
Locorotondo, Cisternino e Ostuni
Alberobello é o ponto de partida perfeito para um dia pelo vale d'Itria. Locorotondo, como o nome sugere, tem um centro histórico circular, com casas brancas de telhados pontiagudos e varandas floridas, e é conhecida pelo seu vinho branco. Cisternino é pequena e saborosa: aqui, os talhos acendem as brasas ao fim do dia e grelham a carne que o cliente acabou de escolher.
Mais perto da costa, Ostuni é a "cidade branca", um amontoado de casas caiadas no alto de uma colina, com a catedral no topo e o mar ao fundo, para lá do olival. Ao pôr do sol, quando a cal se tinge de rosa, é um dos lugares mais bonitos da região.
Lecce: a Florença do barroco
Mais a sul, já na península do Salento, Lecce é a cidade que costuma surpreender mais. Chamam-lhe a "Florença do sul", e a comparação justifica-se pelo seu barroco exuberante, esculpido na pietra leccese, um calcário macio e cor de mel que se deixa trabalhar quase como madeira e que ganha um tom dourado ao fim da tarde.
A fachada da Basílica de Santa Croce é o exemplo mais extraordinário: um bordado de pedra com flores, animais, figuras grotescas e uma rosácea gigante. A poucos minutos a pé, a Piazza del Duomo é uma praça fechada como uma sala, com a catedral, o campanário e o palácio episcopal à volta. Na Piazza Sant'Oronzo, o centro da vida da cidade, metade de um anfiteatro romano está à vista no meio do empedrado, lembrando que Lecce já era importante muito antes do barroco.
Lecce é também uma ótima base para explorar o Salento: as praias de areia e de rocha, a vila de Otranto, com a sua catedral e o castelo à beira-mar, e a ponta de Santa Maria di Leuca, onde se diz que o Adriático e o Jónico se encontram.
Roteiro pela Puglia em cinco a sete dias
Uma semana permite ver o essencial sem pressa. Uma proposta possível, de norte para sul:
- Dia 1: chegada a Bari, passeio por Bari Vecchia e pela basílica.
- Dia 2: Polignano a Mare, com tempo para a Lama Monachile e um mergulho, se o tempo deixar.
- Dia 3: Alberobello, com os dois bairros de trulli.
- Dia 4: vale d'Itria, com Locorotondo e Cisternino, a terminar ao pôr do sol em Ostuni.
- Dia 5: Lecce, com calma para as igrejas e as praças.
- Dias 6 e 7: Salento, entre Otranto, as praias e Santa Maria di Leuca, com regresso a Bari ou partida a partir de Brindisi.
Quem tiver mais tempo pode juntar Matera, já na vizinha Basilicata, com as suas casas escavadas na rocha. Fica perto de Bari e é muitas vezes combinada com a Puglia na mesma viagem.
Como se deslocar na Puglia
O carro é, de longe, a forma mais prática de explorar a região. As estradas são boas, as distâncias curtas e muitas das vilas mais bonitas, sobretudo no vale d'Itria, ficam fora das linhas principais. A única atenção é aos centros históricos, onde a circulação está muitas vezes limitada a residentes: estacione fora das muralhas e entre a pé.
Também é possível viajar de comboio. A linha principal liga Bari a Polignano a Mare e a Lecce, e uma rede regional, a Ferrovie del Sud Est, serve Alberobello e outras vilas do interior, embora com menos frequência. Confirme sempre os horários perto da data, sobretudo ao domingo.
Antes de ir
- Quando ir: a primavera e o início do outono são as melhores alturas, com dias quentes, mar já nadável a partir do fim da primavera e menos gente. Julho e agosto são muito quentes e concorridos, sobretudo na costa.
- Como chegar: Bari e Brindisi são os aeroportos principais. Nem sempre há voo direto a partir de Lisboa, e muitas ligações fazem escala noutra cidade italiana ou europeia; compare as opções antes de reservar.
- Documentos: Itália faz parte do espaço Schengen e da União Europeia, por isso basta o cartão de cidadão válido.
- Onde dormir: dividir a estadia entre duas bases, uma a norte (Polignano, Alberobello ou o vale d'Itria) e outra a sul (Lecce), poupa muitas horas de estrada.
- Experimente: dormir numa masseria, as antigas quintas fortificadas da região, muitas delas hoje convertidas em alojamento rural.
- Na mesa: orecchiette com grelos, burrata fresca, pasticciotto ao pequeno-almoço em Lecce e um copo de primitivo ou negroamaro ao jantar.
Mais Mediterrâneo
A Puglia é uma porta para um mar inteiro de histórias. Se gosta de cidades antigas viradas para a água, de ilhas e de portos com três mil anos, veja as nossas propostas para o Mediterrâneo, onde Itália, Malta e a Grécia se juntam na mesma viagem.