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Blog · Cabo Verde

Ilha do Fogo: subir ao vulcão e provar o vinho de Chã das Caldeiras

10 Abril 2026 · 8 min de leitura

Ilha do Fogo: subir ao vulcão e provar o vinho de Chã das Caldeiras

A ilha do Fogo é um vulcão a sair do Atlântico. Contamos como é a subida ao Pico do Fogo, o ponto mais alto de Cabo Verde, a vida em Chã das Caldeiras depois da erupção de 2014 e o vinho que nasce na cinza.

A ilha do Fogo é, literalmente, um vulcão a sair do mar. No centro ergue-se o Pico do Fogo, com 2829 metros, o ponto mais alto de Cabo Verde, e à volta dele estende-se Chã das Caldeiras, uma enorme caldeira de lava negra onde vivem famílias que cultivam vinha e fazem vinho a mais de 1700 metros de altitude. É uma ilha para quem quer subir a um vulcão ativo ao nascer do dia, descer a correr pela encosta de cinza e acabar a tarde com um copo de vinho feito a poucos quilómetros da cratera. Não é a ilha mais fácil de alcançar nem a mais confortável, mas é das mais marcantes do arquipélago.

O Fogo pertence ao grupo de Sotavento, a sul, entre Santiago e a Brava. Vista do avião, parece um cone perfeito com a ponta cortada, rodeado de encostas castanhas que descem até um mar muito azul. Em dias limpos, o pico vê-se de Santiago.

Chegar à ilha do Fogo

O Fogo não tem voos diretos de Portugal. A forma mais comum de lá chegar é voar para a Praia, em Santiago, e seguir depois de avião ou de barco até São Filipe, a principal cidade da ilha. Os voos entre ilhas mudaram várias vezes de operador nos últimos anos, por isso confirme horários perto da data e evite marcar o regresso ao Fogo para o mesmo dia do voo internacional.

O barco liga a Praia a São Filipe e continua muitas vezes até à Brava. É uma travessia em mar aberto, que pode ser agitada. A CV Interilhas publica a programação no seu site, e os horários variam ao longo do ano.

São Filipe, a cidade dos sobrados

São Filipe é uma das cidades mais bonitas de Cabo Verde e merece pelo menos uma tarde. Fica no alto de uma falésia sobre o mar, com ruas empedradas, praças arborizadas e sobrados, casarões de dois pisos com varandas de madeira e pátios interiores, que lembram o tempo em que a ilha exportava café, algodão e vinho. Alguns estão restaurados, outros guardam a pátina do tempo.

Do miradouro no topo da cidade vê-se a praia de areia preta lá em baixo e, ao fundo, a silhueta da Brava. A praia é bonita mas de mar forte; tome banho só onde vir os locais a fazê-lo. Ao fim da tarde, as praças enchem-se e é a melhor altura para provar o queijo de cabra da ilha e um café do Fogo, cultivado nas encostas norte.

Chã das Caldeiras: viver dentro do vulcão

De São Filipe, a estrada sobe em curvas pela encosta até entrar na caldeira por uma brecha na parede de rocha. A paisagem muda de repente: um planalto de lava, cinza e lapilli, rodeado de um lado por uma muralha de rocha altíssima, a Bordeira, e pelo cone do Pico do Fogo do outro. É Chã das Caldeiras, dentro do Parque Natural do Fogo.

Aqui vivem há gerações famílias que cultivam vinha, feijão, fruta e café num solo que parece estéril mas é surpreendentemente fértil. A vida em Chã das Caldeiras é uma história de teimosia. A última erupção começou a 23 de novembro de 2014 e durou 77 dias, até 8 de fevereiro de 2015. A lava destruiu grande parte das povoações de Portela e Bangaeira, casas, uma escola, um hotel e a adega cooperativa. Os habitantes foram retirados, mas muitos voltaram e reconstruíram, por vezes por cima da lava ainda morna.

Hoje, caminhar entre os campos de lava de 2014, com telhados e muros meio engolidos pela rocha negra, é uma das experiências mais fortes de Cabo Verde. Faça-o com respeito: são as casas e as terras de quem ainda ali vive.

Onde dormir

Em Chã das Caldeiras há pequenas pensões e casas de família, simples e acolhedoras. Dormir na caldeira é quase obrigatório para quem quer subir ao pico, porque a caminhada começa de madrugada. As noites são frias, muito mais do que no resto do arquipélago: leve roupa quente, mesmo que esteja calor em São Filipe.

A subida ao Pico do Fogo

A subida ao Pico do Fogo é a grande aventura da ilha e uma das caminhadas mais exigentes do país. Parte-se de Chã das Caldeiras, ainda de noite ou ao nascer do dia, para fugir ao calor. São cerca de 1100 metros de desnível em pouco espaço, e a subida leva em média três a quatro horas, consoante a forma física e o ritmo do grupo.

O caminho é íngreme e, na parte final, faz-se por rocha solta e cinza, onde cada passo parece escorregar meio passo para trás. Lá em cima, a recompensa é enorme: a borda da cratera, fumarolas com cheiro a enxofre em alguns pontos, e uma vista que abarca a caldeira inteira, o mar e, em dias limpos, as ilhas vizinhas.

A descida é a parte de que toda a gente fala. Por uma encosta de cinza fina, desce-se aos saltos, quase a correr, enterrando os calcanhares a cada passo. O que demorou horas a subir faz-se num instante. É divertido, mas cansativo para os joelhos, e enche as botas de cinza.

Com guia, sempre

A subida faz-se com um guia local, contratado em Chã das Caldeiras ou através do alojamento. O terreno é traiçoeiro, os trilhos não são óbvios e o tempo muda depressa no topo. Para além da segurança, os guias da caldeira conhecem cada erupção pelo nome e contam a história da ilha como ninguém, e contratar um é também uma forma direta de apoiar a comunidade.

Uma alternativa mais suave

Se o pico grande for demasiado, há caminhadas mais acessíveis: subir aos cones mais pequenos dentro da caldeira, como o Pico Pequeno, onde nasceram as erupções de 1995 e de 2014, ou percorrer os campos de lava recentes. Também há trilhos que descem da caldeira pela encosta nordeste, mais verde, em direção a Mosteiros, uma boa opção para quem gosta de caminhar mas não quer o desnível do pico.

O vinho do Fogo

Ninguém espera encontrar vinho dentro de um vulcão, e por isso mesmo o vinho do Fogo é tão especial. As vinhas crescem baixas, em covas abertas na cinza, protegidas do vento por pequenos muros de pedra. O solo vulcânico e a altitude dão vinhos de caráter mineral, sobretudo brancos, mas também tintos, rosés e um passito.

A marca mais conhecida é o Chã, produzido pela cooperativa de viticultores de Chã das Caldeiras. A adega original foi destruída pela erupção de 2014 e foi reconstruída depois, a alguns quilómetros da aldeia, e recebe visitantes para provas. Os vinhos têm ganho prémios internacionais nos últimos anos, uma pequena vitória para uma comunidade que perdeu tanto.

Vale a pena perguntar também pelo manecom, um vinho doce e tradicional da ilha, feito em pequenas quantidades pelas famílias da caldeira. E, como em todo o Cabo Verde, há aguardente e licores caseiros; alguns produtores da caldeira fazem-nos com a fruta que cresce na ilha.

Quantos dias e quando ir

Para conhecer bem a ilha do Fogo, reserve três dias: um para chegar e ver São Filipe, um para Chã das Caldeiras e a subida ao pico, e outro para descansar as pernas, provar vinho e voltar. Com dois dias também se faz, mas tudo fica a correr, e a ligação de regresso nem sempre é previsível.

A melhor altura para subir ao pico é entre novembro e junho, quando o tempo é seco. Nos meses das chuvas, entre agosto e outubro, a paisagem fica mais verde mas as nuvens tapam mais vezes o topo. Em qualquer época, as noites em Chã das Caldeiras são frescas.

Antes de ir

  • Forma física: a subida ao pico exige boa preparação; se não caminha com regularidade, prefira os percursos dentro da caldeira.
  • Guia: contrate sempre um guia local para subir ao Pico do Fogo.
  • Calçado: botas de caminhada com cano alto, para proteger os tornozelos e reduzir a cinza que entra; polainas ajudam.
  • Roupa: camadas, casaco quente para a madrugada e para a noite, chapéu e protetor solar para o resto do dia.
  • Água e comida: leve bastante água e algo para comer; lá em cima não há nada.
  • Dinheiro: em Chã das Caldeiras não conte com multibanco; leve escudos cabo-verdianos para alojamento, guia e provas.
  • Ligações: confirme voos e barcos entre ilhas com antecedência e deixe margem antes do voo de regresso a Portugal.
  • Documentos: veja as regras de entrada em vigor no Portal das Comunidades.

Do vulcão aos vales verdes

Se gostou da ideia de subir ao Fogo, vai gostar também da outra grande ilha de caminhadas do arquipélago. A experiência Trilhos de Santo Antão leva-o durante três dias e duas noites, com um guia da ilha, pela cratera do Cova, pelo vale da Ribeira Grande e por Fontainhas, com noites em pensões familiares em Ponta do Sol. Para planear o resto da viagem, veja a nossa página de Cabo Verde.

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