Tenerife ou Gran Canaria? Lanzarote ou Fuerteventura? E as ilhas pequenas? Um guia ilha a ilha às Canárias no inverno, para escolher entre vulcões, dunas, florestas e praias conforme o tipo de viagem que procura.
Dizer "vou às Canárias" é quase tão vago como dizer "vou aos Açores". São oito ilhas habitadas, e cada uma tem um temperamento próprio: há as dos vulcões negros e da arte de César Manrique, as das dunas douradas e do vento, as das florestas húmidas e dos trilhos íngremes. Nas Canárias no inverno o sol está praticamente garantido em todas, sobretudo nas costas sul, mas a viagem muda completamente consoante a ilha. Se está entre Tenerife ou Gran Canaria, se Lanzarote o tenta mais do que Fuerteventura, ou se quer fugir para uma das pequenas, este guia ajuda a escolher, ilha a ilha.
Porque é que as Canárias no inverno funcionam tão bem
O segredo está na latitude e nos alísios. As ilhas ficam ao largo da costa de África, à altura do sul de Marrocos, e os ventos de nordeste que sopram quase todo o ano mantêm as temperaturas estáveis. Isso quer dizer dias amenos em dezembro, janeiro e fevereiro, mas também uma regra que convém conhecer: o norte de cada ilha montanhosa apanha as nuvens, e o sul fica com o sol. Quem quer praia garantida dorme a sul; quem quer verde e caminhadas espreita o norte.
Outra coisa que convém saber antes de escolher: o mar não aquece como nas Caraíbas. No inverno a água anda fresca, perfeitamente nadável num dia de sol, mas não é morna. E nas zonas altas, como o Teide ou o centro de Gran Canaria, pode fazer frio a sério e até nevar.
Tenerife ou Gran Canaria: as duas grandes
São as ilhas maiores, as mais povoadas e as mais fáceis de alcançar a partir de Lisboa, e por isso a dúvida "Tenerife ou Gran Canaria" é a mais comum. Ambas têm um pouco de tudo. A diferença está no tom.
Tenerife: o Teide e as duas caras da ilha
Tenerife é dominada pelo Teide, o ponto mais alto de Espanha, rodeado por um parque nacional de paisagem lunar, com escoadas de lava, cones vulcânicos e rochas de cores impossíveis. Subir de teleférico até perto do cume é uma das experiências mais procuradas das ilhas. Para chegar ao cume propriamente dito é preciso reservar autorização e, desde janeiro de 2026, os visitantes não residentes pagam uma ecotaxa para alguns trilhos do parque, como explica a RTVC, a televisão pública canária. As regras têm mudado, por isso confirme-as antes de ir.
A ilha tem duas personalidades. O sul, com Los Cristianos, Costa Adeje e Los Gigantes, é seco, soalheiro e feito para a praia. O norte é verde, com o maciço de Anaga, as suas florestas e aldeias penduradas na serra, a cidade histórica de San Cristóbal de La Laguna, património mundial, e Puerto de la Cruz, a estância mais antiga da ilha. A oeste, a garganta de Masca é um dos trilhos mais espetaculares do arquipélago.
Em fevereiro há ainda o Carnaval de Santa Cruz de Tenerife, um dos maiores do mundo. Em 2027, segundo o município, o Carnaval de rua decorre de 19 a 28 de fevereiro, mais tarde do que o habitual.
Escolha Tenerife se: quer variedade, caminhadas de montanha e a possibilidade de combinar praia com paisagens vulcânicas no mesmo dia.
Gran Canaria: um continente em miniatura
Gran Canaria costuma ser descrita como um continente em miniatura, e a expressão não é exagerada. No sul ficam as dunas de Maspalomas, um pequeno deserto de areia que desce até ao mar, e as estâncias de Playa del Inglés e Puerto de Mogán, esta última com canais e casas floridas. No centro, a estrada sobe até ao Roque Nublo, um monólito de rocha que se ergue sobre um mar de montanhas e barrancos.
A grande vantagem de Gran Canaria é Las Palmas, a capital, uma cidade a sério, com vida própria o ano inteiro. O bairro antigo de Vegueta, com a casa de Colombo e a catedral de Santa Ana, conta a história das ilhas, e a praia de Las Canteras, protegida por uma barreira natural de rocha, é um dos melhores areais urbanos de Espanha.
Escolha Gran Canaria se: quer juntar cidade e praia, gosta de ter restaurantes e cultura à porta e não dispensa uns dias de sol garantido no sul.
Lanzarote: vulcões e arte
Lanzarote é a ilha mais diferente das grandes. Plana, escura e quase sem árvores, parece outro planeta, e foi isso que a tornou especial. No Parque Nacional de Timanfaya, as Montañas del Fuego guardam o calor das erupções do século XVIII tão perto da superfície que se cozinha com ele. Em La Geria, as vinhas crescem dentro de covas escavadas na cinza vulcânica, protegidas do vento por pequenos muros de pedra.
O nome que ninguém evita em Lanzarote é o de César Manrique, o artista que convenceu a ilha a crescer sem prédios altos e desenhou alguns dos seus lugares mais bonitos: os Jameos del Agua, uma gruta vulcânica com um lago e um auditório, o Mirador del Río, sobre o estreito que a separa de La Graciosa, e a casa onde viveu, construída dentro de bolhas de lava.
Escolha Lanzarote se: gosta de paisagens fortes, arquitetura e arte, e prefere praias tranquilas a grandes estâncias.
Fuerteventura: dunas, vento e praias sem fim
Fuerteventura é a ilha das praias. É a mais antiga do arquipélago e a mais erodida, por isso tem os areais mais longos e mais claros. A norte, o Parque Natural das Dunas de Corralejo é um mar de areia branca junto ao Atlântico. A sul, a península de Jandía guarda a praia de Cofete, selvagem e quase sem construções, encostada a uma serra que cai a pique.
O vento é uma constante, e é por isso que Fuerteventura é um dos grandes destinos europeus de windsurf e kitesurf. Para quem não surfa, a ilha oferece uma paz rara: vilas pequenas como Betancuria, a antiga capital, no interior montanhoso, e a ilhota de Lobos, a poucos minutos de barco de Corralejo. Para visitar Lobos é preciso uma autorização prévia gratuita, que convém tratar com antecedência.
Escolha Fuerteventura se: a praia é o programa principal, quer espaço e silêncio ou pratica desportos de vento.
As ilhas pequenas: La Palma, La Gomera, El Hierro e La Graciosa
As ilhas ocidentais são a parte das Canárias que muita gente nunca chega a ver. São mais verdes, mais íngremes e muito mais calmas.
La Gomera fica a uma travessia curta de ferry de Los Cristianos, em Tenerife, o que permite visitá-la num dia ou ficar umas noites. O coração da ilha é o Parque Nacional de Garajonay, uma floresta de laurissilva classificada como património mundial e envolta em nevoeiro, parente direta da que se percorre na Madeira. É também a terra do silbo gomero, a linguagem assobiada que os pastores usavam para comunicar entre vales.
La Palma, a "ilha bonita", é a mais verde e uma das mais altas. A Caldera de Taburiente é uma enorme cratera coberta de pinheiros, e o céu é tão limpo que no topo da ilha funciona um dos observatórios astronómicos mais importantes do mundo, no Roque de los Muchachos. Em 2021, a erupção do vulcão Tajogaite mudou parte da paisagem a oeste, e hoje a ilha recebe quem a visita com vontade de ver como se recupera.
El Hierro é a mais pequena das ocidentais e a mais remota. É reserva da biosfera, tem um mergulho excelente nas águas da Restinga, a sul, e um ritmo que faz parecer apressadas as outras ilhas pequenas.
La Graciosa, ao lado de Lanzarote, chega-se de barco a partir de Órzola. Não tem estradas asfaltadas, só pistas de areia, e é o lugar ideal para um dia de praia longe de tudo.
Escolha uma ilha pequena se: já conhece as grandes, gosta de caminhar e quer sossego a sério.
Como chegar a partir de Lisboa
As ilhas maiores são as mais fáceis. A TAP tem voos diretos de Lisboa para Tenerife Sul e para Gran Canaria, com cerca de duas horas e meia de viagem, mas as frequências variam com a estação, por isso confirme os horários no site da companhia antes de planear. Para Lanzarote, Fuerteventura e as ilhas pequenas, o mais comum é fazer escala numa das grandes ou em Madrid, ou aproveitar ligações sazonais quando existem.
Entre ilhas, há voos regionais curtos e ferries regulares. Os ferries são uma boa forma de combinar duas ilhas vizinhas, como Tenerife e La Gomera, ou Lanzarote e Fuerteventura, sem voltar ao aeroporto.
Um detalhe simpático: as Canárias têm a mesma hora de Portugal continental, por isso não há fuso horário para acertar.
Antes de ir: que ilha para que viagem
- Primeira vez, quer de tudo um pouco: Tenerife ou Gran Canaria.
- Cidade e praia na mesma viagem: Gran Canaria, com base em Las Palmas.
- Caminhadas de montanha e paisagem vulcânica: Tenerife, com dias reservados para o Teide e Anaga.
- Arte, arquitetura e paisagem fora do comum: Lanzarote.
- Praia, vento e espaço: Fuerteventura.
- Floresta e trilhos com nevoeiro: La Gomera ou La Palma.
- Silêncio total: El Hierro ou La Graciosa.
- Duas ilhas numa semana: Tenerife com La Gomera, ou Lanzarote com Fuerteventura.
- Na mala: um casaco para as noites e para as zonas altas, calçado de caminhada e protetor solar, que o sol de inverno engana.
- Documentos: as Canárias são Espanha e fazem parte da União Europeia, por isso basta o cartão de cidadão válido.
Para onde ir a seguir
Ainda não temos uma experiência dedicada às Canárias, mas se gosta de ilhas vulcânicas, trilhos e sol de inverno, vale a pena continuar a explorar o nosso blog. As ilhas atlânticas têm muito em comum entre si, e quem se apaixona por uma raramente fica por aí.