Pequenos, coloridos e cheios de humor, os bonecos de Estremoz contam há mais de três séculos a vida do Alentejo em barro. A história desta arte classificada pela UNESCO, as figuras que vale a pena conhecer, como se fazem e onde os ver e comprar.
Cabem na palma da mão, têm cores vivas e um ar ao mesmo tempo ingénuo e trocista. Os bonecos de Estremoz são figuras de barro modeladas e pintadas à mão que retratam, há mais de três séculos, a vida, a fé e o humor do Alentejo: pastores, mulheres à janela, soldados, santos populares, presépios inteiros. Em dezembro de 2017, a UNESCO inscreveu a Produção de Figurado em Barro de Estremoz na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade. Se vai a Estremoz, ver os bonecos a nascer numa oficina e trazer um para casa é quase obrigatório. Neste guia contamos de onde vêm, como se fazem, que figuras procurar e onde os encontrar.
O que são os bonecos de Estremoz
São pequenas esculturas de barro cozido, pintadas com cores fortes e, depois, envernizadas. Cada figura é feita peça a peça: o corpo, a cabeça, os braços, as saias, os chapéus e os objetos que segura são moldados separadamente e montados com barro fresco antes de irem ao forno. Em algumas figuras o rosto pode sair de um pequeno molde, mas o resto é modelado e "vestido" à mão, e é por isso que dois bonecos iguais nunca são exatamente iguais.
O barro de Estremoz é a matéria-prima, mas o que faz destes bonecos uma arte única é o repertório. Ao longo dos séculos, os barristas fixaram um repertório próprio, com mais de 90 figuras inventariadas pelo museu municipal, cada uma com gestos, roupas e cores próprias, que se repetem de geração em geração com pequenas variações de mão para mão. É uma linguagem visual partilhada, que qualquer estremocense reconhece à primeira vista.
Três séculos de história em barro
A tradição remonta, pelo menos, ao século XVII, quando em Estremoz se faziam figuras de barro para presépios e para os altares domésticos dos santos. Durante muito tempo foi sobretudo uma arte de mulheres, as boniqueiras, que faziam figuras e curiosidades de barro em casa. No início do século XX, porém, estava quase perdida.
A recuperação começou em 1935, pela mão do escultor José Maria Sá Lemos, então diretor da escola industrial de Estremoz. Sá Lemos procurou Ana da Silva, conhecida como Tia Ana das Peles, uma das últimas mulheres que ainda sabiam fazer os bonecos, e conseguiu que ela transmitisse o que sabia. O saber passou depois para o mestre oleiro Mariano da Conceição, da Olaria Alfacinha, e daí para novas gerações de barristas. Nos anos 1940, Sá Lemos e Mariano da Conceição criaram juntos um presépio que juntou a tradição dos presépios à dos tronos dos santos populares e que se tornou uma referência.
Desde então, a tradição passou por famílias e oficinas que continuam a trabalhar na cidade. A candidatura à UNESCO foi apresentada pelo município de Estremoz, e a inscrição foi aprovada a 7 de dezembro de 2017, numa reunião do comité intergovernamental na Coreia do Sul.
As figuras que vale a pena conhecer
O repertório é vasto, mas há personagens que aparecem em quase todas as oficinas e que ajudam a perceber o espírito destes bonecos.
A Primavera
É uma das figuras mais populares do figurado de Estremoz: uma figura feminina enfeitada de flores, que celebra a chegada da estação. É das mais procuradas por quem compra o primeiro boneco.
O Amor é Cego
Outra das figuras mais populares, com um nome que diz quase tudo. Tem tanto de poesia como de ironia, e é um bom exemplo do humor que atravessa todo o figurado de Estremoz. Peça ao barrista que lhe conte a história da sua versão: cada oficina tem a sua.
Figuras do quotidiano
Pastores, gente dos ofícios e dos trabalhos do campo, mulheres nas lides da casa, namorados, soldados e figuras de festa. Em conjunto, são um retrato do Alentejo rural de outros tempos, visto com carinho e alguma malícia, e é nelas que se nota melhor o estilo de cada barrista.
Presépios e santos
Os presépios são uma parte essencial da tradição, com dezenas de figuras que vão da Sagrada Família aos pastores, aos reis magos e a personagens tipicamente alentejanas. Também os santos populares, Santo António, São João e São Pedro, aparecem com frequência, assim como a Rainha Santa Isabel, que morreu em Estremoz.
Como se faz um boneco
Numa oficina de Estremoz, o processo é lento e minucioso.
- Preparar o barro: a argila é amassada até ficar homogénea e sem bolhas de ar, que fariam a peça rebentar no forno.
- Modelar as partes: o corpo nasce de uma bola de barro; braços, cabeça, mãos, saias e acessórios moldam-se à parte com os dedos e com pequenos utensílios.
- Montar a figura: as partes juntam-se com barro mole, e a figura ganha a sua postura e os seus detalhes.
- Secar e cozer: os bonecos secam lentamente e só depois vão ao forno.
- Pintar e envernizar: já cozidos, recebem as cores, aplicadas à mão com pincéis finos, e uma camada final de verniz.
Ver um barrista a trabalhar é a melhor forma de perceber o valor de cada peça. Uma figura simples pode exigir horas de trabalho, e as mais complexas, como os presépios ou as figuras com muitos adereços, levam dias.
Onde ver e comprar bonecos de Estremoz
- Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz: inaugurado em 2021, explica a técnica e a história do figurado, expõe peças da produção atual e tem momentos em que se pode ver barristas a modelar ao vivo.
- Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho: guarda uma coleção importante de figurado antigo e tem uma oficina onde barristas trabalham à vista dos visitantes.
- Oficinas dos barristas: várias estão na cidade e recebem visitas. É a melhor forma de comprar, porque se fala com quem fez a peça e se percebe a história de cada figura. Ligue antes, já que são oficinas pequenas.
- Mercado de sábado no Rossio: no mercado semanal e na feira de velharias aparecem bancas com bonecos novos e, por vezes, peças antigas.
Na hora de comprar, desconfie das imitações feitas em série. Um boneco autêntico tem pequenas irregularidades, pintura feita à mão e, muitas vezes, a assinatura ou a marca do barrista. Há também um processo de certificação dos barristas, que pode perguntar na oficina ou no posto de turismo. Confirme sempre horários de museus e oficinas antes da visita.
Bonecos, barro e o artesanato do Alentejo
Os bonecos são apenas uma parte da enorme tradição de artesanato do Alentejo ligada ao barro. A poucos quilómetros, em Redondo e sobretudo em São Pedro do Corval, a olaria continua a ser ofício de família, com oficinas onde a roda de oleiro gira todos os dias. Se quiser ter uma visão mais larga destas artes por todo o país, do barro de Estremoz aos bordados da Madeira, o nosso Pequeno guia do artesanato português é um bom ponto de partida.
Antes de ir
- Quando: qualquer altura do ano. Escolha um sábado para juntar à visita o mercado no Rossio.
- Quanto tempo: meio dia chega para o Centro Interpretativo, o museu e uma oficina; um dia inteiro permite juntar o castelo e a vila alta.
- Transportar as peças: são frágeis. Peça que as embrulhem bem e leve-as na bagagem de mão se for viajar de avião.
- Respeito: nas oficinas, pergunte antes de fotografar o trabalho dos barristas.
- Para levar para casa: comece por uma Primavera ou um Amor é Cego, duas figuras clássicas que resumem bem esta arte.
Pôr as mãos no barro
Se depois de ver os bonecos lhe apetecer sujar as mãos, a nossa experiência Barro, mesa e memória começa no centro histórico de Estremoz e leva-o a São Pedro do Corval, a maior comunidade oleira da Península Ibérica. Ali passa a manhã com um mestre oleiro, com aula prática à roda (a peça que moldar é cozida e enviada depois para sua casa), antes de um almoço de fogão de lenha numa herdade familiar.