Uma é branca e cheia de janelas viradas para o rio, a outra é de pedra cinzenta e telhados de xisto. Berat e Gjirokastër formam juntas um sítio da UNESCO e são o melhor contraponto às praias da Riviera Albanesa.
Há quem vá à Albânia só pela praia e volte a dizer que o melhor foram as cidades. Berat, na Albânia central, e Gjirokastër, no sul, são duas das cidades otomanas mais bem preservadas dos Balcãs, e partilham desde 2008 um mesmo lugar na lista do Património Mundial da UNESCO. Berat é branca, luminosa, com casas empilhadas na encosta e janelas viradas para o rio. Gjirokastër é de pedra, mais austera, com casas-torre e telhados de xisto à sombra de um castelo enorme. Visitar Berat e Gjirokastër é perceber outra Albânia, mais antiga e mais profunda do que a dos postais da Riviera. Este guia explica o que ver em cada uma, quanto tempo ficar e como as encaixar numa viagem.
Duas cidades, um só património da UNESCO
A história da classificação ajuda a perceber o que as une. Gjirokastër entrou primeiro na lista da UNESCO, em 2005, como "cidade-museu". Em 2008, o centro histórico de Berat foi acrescentado, e o sítio passou a chamar-se Centros Históricos de Berat e Gjirokastra.
A UNESCO descreve-as como exemplos raros de uma arquitetura típica do período otomano, notavelmente bem preservada, sobretudo nas casas tradicionais. Não são cidades-monumento com meia dúzia de edifícios famosos: o que impressiona é o conjunto, ruas inteiras de casas antigas ainda habitadas, que mantêm o desenho e a escala de há séculos.
Ao mesmo tempo, são muito diferentes entre si. Berat cresceu ao longo de um rio, num vale aberto; Gjirokastër agarra-se à encosta de uma montanha, sobre o vale do Drino. Uma é suave, a outra é dramática. Ver as duas na mesma viagem é a melhor forma de perceber a riqueza das cidades UNESCO da Albânia.
Berat, Albânia: a cidade das mil janelas
Berat é uma das cidades habitadas mais antigas do país. O castelo, a Kala, tem origens que remontam ao século IV a.C., embora a fortaleza que hoje se vê seja sobretudo medieval, do século XIII. Mas o que faz a fama de Berat são os bairros otomanos que descem da colina até ao rio Osum.
Mangalem e Gorica
O bairro de Mangalem, na margem norte, é a imagem de marca da cidade: casas brancas encavalitadas na encosta, com janelas tão próximas umas das outras que valeram a Berat a alcunha de "cidade das mil janelas". Do outro lado do rio fica Gorica, o antigo bairro cristão, mais tranquilo, de onde se tem a melhor vista sobre Mangalem. Os dois estão ligados por uma ponte otomana de pedra com sete arcos.
Ao fim da tarde, as ruas junto ao rio enchem-se de gente no tradicional passeio, o xhiro. É a melhor hora para ver Berat ganhar vida, com as luzes a acenderem-se nas janelas da encosta.
O castelo, ainda habitado
Subir à Kala é obrigatório. Ao contrário de muitas fortalezas, o castelo de Berat continua habitado: dentro das muralhas há casas de família, ruelas de calçada, pequenos cafés e várias igrejas bizantinas. Uma delas, a antiga catedral da Dormição de Santa Maria, acolhe o Museu Nacional de Ícones Onufri, com uma coleção de ícones que atravessa vários séculos e tem o nome de um dos grandes pintores de ícones albaneses.
Vale a pena procurar também a pequena igreja da Santíssima Trindade, nas muralhas, e os miradouros sobre o vale do Osum e as montanhas à volta. A subida é íngreme e a calçada escorrega; leve calçado com boa sola.
À volta de Berat
Se tiver mais um dia, a região de Berat é conhecida pelo vinho, com adegas familiares que recebem visitantes, e pelo desfiladeiro do Osum, a sudeste, onde o rio corre entre paredes de rocha. A leste ergue-se o monte Tomorr, uma montanha sagrada para os albaneses.
Gjirokastër: a cidade de pedra
Se Berat é branca, Gjirokastër é cinzenta. As casas são construídas em pedra, com telhados cobertos de lajes de xisto, e sobem pela encosta à volta de uma cidadela que remonta ao século XIII. O resultado é uma cidade com ar de fortaleza, onde cada casa parece um pequeno castelo.
As casas-torre
As grandes casas tradicionais de Gjirokastër, as kullë, são o tesouro da cidade. Muitas foram desenvolvidas a partir do século XVII, com vários pisos: em baixo, cisternas e armazéns; em cima, salas de receber com tetos de madeira trabalhada, nichos e janelas viradas para o vale.
Algumas estão abertas ao público. A casa Skënduli, construída em 1823 sobre uma casa mais antiga, tem dois pátios e duas escadarias e conta uma história típica do século XX albanês: foi confiscada à família durante o regime comunista e só lhe foi devolvida em 1992. Visitar uma destas casas com calma é a melhor forma de perceber como se vivia aqui.
O castelo e as memórias do século XX
O castelo de Gjirokastër domina a cidade e é enorme. Lá dentro há torres, uma torre do relógio, uma igreja, cisternas, o museu da cidade e o Museu das Armas, instalado numa parte da antiga prisão, com uma galeria de canhões e armamento pesado ao longo de um corredor sombrio. As vistas sobre o vale do Drino, sobretudo ao fim da tarde, compensam a subida.
A Gjirokastër do século XX está também noutros cantos da cidade. Há um túnel-abrigo da Guerra Fria, construído durante o regime comunista, que se pode visitar. E, no bairro de Palorto, fica a casa-museu de Ismail Kadare, o escritor albanês mais conhecido no mundo, que nasceu na cidade em 1936. A casa original ardeu em 1997 e foi reconstruída a partir de documentos de arquivo, memórias da família e das descrições do próprio escritor no romance autobiográfico Crónica na Pedra. O museu abriu em 2018, no dia em que Kadare fez 80 anos.
O velho bazar
O bazar de Gjirokastër, com ruas de calçada em ziguezague, lojas de artesanato, tapetes, objetos de cobre e pequenos restaurantes, é o centro da vida da cidade velha. Experimente aqui a cozinha da região, com pratos de forno, queijos e o qifqi, bolinhos de arroz com ervas típicos de Gjirokastër.
Berat ou Gjirokastër?
Se só tiver tempo para uma, a escolha depende do que procura.
- Escolha Berat se quer uma cidade mais luminosa e fotogénica, com rio, passeio ao fim da tarde e um castelo habitado. Também fica mais perto de Tirana.
- Escolha Gjirokastër se gosta de arquitetura com carácter, de casas para visitar por dentro e da história do século XX. Fica mais perto de Saranda e da Riviera.
Mas, se puder, veja as duas. São complementares e, juntas, dão uma imagem muito mais rica do passado otomano e balcânico do país.
Como as encaixar numa viagem
As duas cidades ficam no caminho natural entre Tirana e o sul, por isso combinam bem com uns dias de praia.
- Berat: a cerca de duas horas de Tirana, de carro ou de autocarro. Merece pelo menos uma noite, de preferência duas; ver a cidade com a luz do fim da tarde e da manhã muda tudo.
- Gjirokastër: a mais de duas horas de Berat por estrada de interior, e a pouco mais de uma hora de Saranda. Uma ou duas noites chegam para o essencial.
- De transportes públicos: há autocarros frequentes entre Tirana e Berat; entre Berat e Gjirokastër as ligações diretas são poucas, por isso confirme os horários na véspera.
- De carro: é a opção mais prática para juntar as duas cidades, o Olho Azul e a costa no mesmo percurso.
Um encadeamento que funciona bem: Tirana, duas noites em Berat, uma ou duas em Gjirokastër, e depois a descida para Ksamil e a subida pela Riviera.
Quando ir
Berat e Gjirokastër visitam-se bem todo o ano, mas a primavera e o outono são as melhores alturas: dias amenos, luz bonita e poucos turistas. No verão, o interior aquece muito e as subidas aos castelos fazem-se melhor de manhã cedo ou ao fim da tarde. No inverno pode estar frio e chuvoso, sobretudo em Gjirokastër, mas a atmosfera das cidades de pedra sem gente tem o seu encanto.
Antes de ir
- Calçado: sapatos confortáveis com boa sola; as calçadas dos castelos e dos bairros antigos são íngremes e escorregadias.
- Tempo: pelo menos uma noite em cada cidade, idealmente duas em Berat.
- Horários: museus e casas tradicionais podem mudar de horário com a estação; confirme localmente antes de planear o dia.
- Dinheiro: leve leks em notas para entradas, cafés e pequenas compras no bazar.
- Respeito: dentro do castelo de Berat vivem famílias; fotografe com discrição e não entre em pátios privados.
- Documentos: os portugueses entram na Albânia sem visto, com cartão de cidadão ou passaporte; confirme as regras nos conselhos aos viajantes do Portal das Comunidades. Para saber mais sobre o sítio, veja a página oficial da UNESCO.
Depois das cidades, o mar
Depois das calçadas de pedra, a Riviera Albanesa fica a poucas horas de distância. A experiência Segredos da Riviera Albanesa é a forma ideal de fechar a viagem: um dia inteiro de barco a partir do porto de pesca de Himarë, com paragens para nadar em grutas e baías desertas e almoço com vinho local numa taverna de família sobre o mar. Para mais ideias, veja as nossas propostas no destino Albânia.