Entre o fim de janeiro e fevereiro, o barrocal e a serra algarvia cobrem-se de branco e rosa. Onde ver as amendoeiras em flor no Algarve, quando ir, a lenda que as explica e como aproveitar a viagem.
As amendoeiras em flor no Algarve são um dos espetáculos mais bonitos e mais discretos do inverno português. Normalmente entre meados de janeiro e fevereiro, as encostas do barrocal e da serra cobrem-se de flores brancas e rosadas, quando o resto do país ainda está mergulhado no frio. Se quer vê-las, aponte para o fim de janeiro e as primeiras semanas de fevereiro, procure o interior, longe da costa, e vá com tempo para andar a pé. Neste guia explicamos quando acontece a floração, onde ficam os melhores sítios e como juntar tudo numa escapadinha.
Quando florescem as amendoeiras no Algarve
A amendoeira é das primeiras árvores a florir no ano. No Algarve, a floração das amendoeiras começa habitualmente em meados de janeiro e prolonga-se por fevereiro, com o pico, na maioria dos anos, entre o fim de janeiro e meados de fevereiro. É um período curto: cada árvore está no auge apenas uma a duas semanas, e um temporal de vento ou chuva pode deitar abaixo as pétalas em poucos dias.
A data exata muda de ano para ano e de sítio para sítio. Depende do frio acumulado no inverno, da chuva e da exposição da encosta. Árvores em zonas mais baixas e abrigadas florescem antes; as da serra, mais tarde. Por isso, numa mesma viagem, é possível encontrar pomares já com folhas verdes e outros ainda em botão. Antes de marcar, vale a pena seguir as notícias regionais e as redes sociais das câmaras municipais do interior, que costumam anunciar quando a floração está no auge.
Algarve em janeiro e fevereiro: vale a pena?
Muito. O Algarve em janeiro e fevereiro é outro Algarve: dias curtos mas muitas vezes luminosos, temperaturas amenas à tarde, praias quase vazias, alojamento mais barato e restaurantes onde não é preciso reservar com semanas de antecedência. As noites podem ser frias, sobretudo no interior, e há dias de chuva, mas um fim de semana entre amendoeiras e almoços demorados é das melhores formas de conhecer a região fora de época.
Onde ver amendoeiras em flor no Algarve
A amendoeira foi durante séculos uma das árvores do sequeiro algarvio, ao lado da alfarrobeira, da oliveira e da figueira. Muitos pomares foram abandonados ou substituídos, mas ainda há manchas grandes, sobretudo no barrocal, a faixa de terra calcária entre o litoral e a serra.
O barrocal central: Loulé, Querença e Salir
O interior do concelho de Loulé é um dos melhores sítios para ver amendoeiras em flor. As estradas entre Loulé, Querença, Salir e Alte atravessam colinas de pedra calcária com pomares tradicionais, muros de pedra seca e pequenas aldeias brancas. Querença, com a sua igreja no alto de um largo, é um bom ponto de partida para passeios a pé, e a zona à volta de Salir tem várias estradas secundárias onde vale a pena parar e caminhar entre as árvores.
Aproveite para provar os doces de amêndoa, que no Algarve são quase uma arte: os bolinhos de amêndoa moldados em forma de frutos e animais, os morgados e as tartes de amêndoa que se vendem nas pastelarias das vilas.
A serra do Caldeirão e São Brás de Alportel
Mais para norte, a serra do Caldeirão tem paisagens mais ásperas, com sobreiros, esteva e pequenos pomares à volta dos montes. A estrada que sobe de São Brás de Alportel em direção à serra passa por encostas onde as amendoeiras aparecem entre os sobreiros. A floração aqui costuma ser um pouco mais tardia do que no barrocal.
O nordeste algarvio: Alta Mora e Castro Marim
No interior de Castro Marim, junto ao Baixo Guadiana, fica a aldeia de Alta Mora, que nos últimos anos se tornou o grande palco das amendoeiras em flor no Algarve. A associação local organiza o Festival das Amendoeiras em Flor, com caminhadas guiadas por percursos de diferentes distâncias, mercado de produtos locais e animação. A quinta edição decorreu de 6 a 8 de fevereiro de 2026, e as caminhadas exigiram inscrição prévia. As datas da próxima edição devem ser confirmadas junto da organização, a associação ARCDAA, antes de planear a viagem.
Fora do festival, existe um percurso pedestre circular a partir de Alta Mora, o Caminho da Amendoeira, com cerca de 11 quilómetros, que se pode fazer por conta própria. Toda esta zona tem uma rede de percursos pedestres sinalizados entre Alcoutim, Castro Marim e Vila Real de Santo António, ideal para quem quer juntar amendoeiras, montes de xisto e vistas sobre o Guadiana.
O barlavento
No barlavento, a oeste, as amendoeiras são mais dispersas, mas aparecem nos campos à volta de Silves, nas encostas que descem da serra de Monchique e nos campos agrícolas de Aljezur e Vila do Bispo. Não há manchas tão grandes como no barrocal, mas a combinação de árvores em flor, verde intenso de inverno e mar ao fundo tem o seu encanto.
A lenda das amendoeiras
Não há conversa sobre amendoeiras em flor no Algarve sem a lenda. Conta-se que, no tempo dos mouros, um rei de Silves casou com uma princesa vinda das terras do norte da Europa. A princesa vivia triste, com saudades da neve da sua terra, e quase deixou de sorrir. Para a consolar, o rei mandou plantar milhares de amendoeiras à volta do palácio. Num dia de fim de inverno, a princesa abriu a janela e viu os campos cobertos de branco, como se tivesse nevado. Voltou a sorrir, e as amendoeiras ficaram para sempre na paisagem algarvia.
É uma lenda, sem fundamento histórico, mas explica bem a sensação de quem vê, num dia de sol, um vale inteiro coberto de flores brancas.
Um fim de semana entre amendoeiras
Se tiver dois dias, uma forma simples de organizar a viagem é dividir o Algarve ao meio. No primeiro dia, explore o barrocal central: comece em Loulé de manhã, com uma passagem pelo mercado municipal, siga para Querença e Salir pelas estradas secundárias e termine em Alte, com um passeio pelas fontes ao fim da tarde. No segundo dia, vá para leste, até Alta Mora e ao Baixo Guadiana, faça parte do Caminho da Amendoeira e acabe o dia em Castro Marim, com o castelo e as salinas à luz baixa do inverno. Entre um ponto e outro, há tempo para almoços longos, que no inverno algarvio sabem a cozido de grão, a xarém e a doces de amêndoa e figo.
Dicas para fotografar a floração
- A melhor luz é a do início da manhã e do fim da tarde, quando o sol baixo atravessa as pétalas e as faz brilhar.
- Procure contraste: flores brancas contra céu azul, contra uma parede caiada ou contra o verde escuro dos sobreiros.
- Aproxime-se: muitas amendoeiras têm flores com o centro rosado, que só se vê de perto.
- Respeite as propriedades: a maioria dos pomares é privada. Fotografe da estrada ou dos caminhos públicos e não arranque ramos.
Antes de ir
- Quando: aponte para o fim de janeiro e a primeira metade de fevereiro, mas siga as notícias locais, porque a floração varia de ano para ano.
- Como: de carro, para poder percorrer as estradas secundárias do barrocal e da serra. Os transportes públicos no interior são escassos.
- Calçado e roupa: botas leves ou sapatilhas para caminhar em terra batida, e roupa por camadas. As manhãs podem ser frias e as tardes surpreendentemente quentes.
- Chuva: leve um impermeável. Fevereiro é um mês em que pode chover.
- Festival: se quiser ir ao festival de Alta Mora, inscreva-se cedo nas caminhadas, que costumam ter lugares limitados.
- Comer: almoce nas tascas das aldeias do interior e leve doces de amêndoa para casa.
- Dormir: procure turismo rural no barrocal ou na serra para acordar no meio da paisagem.
Voltar ao Algarve no verão
Se as amendoeiras lhe mostraram um Algarve diferente, há mais para descobrir quando os dias crescem. No verão, a experiência O vento nas arribas leva pequenos grupos de Vila do Bispo até ao Cabo de São Vicente numa caminhada de fim de tarde de cerca de cinco quilómetros pelas falésias, com um biólogo marinho local, observação de aves e flora endémica das arribas, pôr do sol no ponto mais a sudoeste da Europa e petiscos da região de frente para o Atlântico.