Xisto e portas azuis no Piódão, casas encaixadas entre penedos em Monsanto, muralhas de granito em Sortelha e o palácio em ruínas de Castelo Rodrigo: quatro dias pelas Aldeias Históricas de Portugal, ao ritmo do outono.
As Aldeias Históricas de Portugal são doze lugares de pedra espalhados pelo interior da Beira, entre a Serra da Estrela e a raia com Espanha, e quatro dias chegam para conhecer as mais marcantes sem andar a correr. Este roteiro liga Piódão, Monsanto, Sortelha e Castelo Rodrigo, com paragens em Idanha-a-Velha, Belmonte e Almeida pelo caminho. É uma viagem de castelos, xisto e granito, de estradas de montanha e de jantares longos, e o outono, com as castanhas, as vinhas a mudar de cor e as manhãs de nevoeiro, é talvez a melhor altura para a fazer.
O que são as Aldeias Históricas de Portugal
A rede nasceu de um programa lançado pelo Estado em 1991 para recuperar e dar vida a aldeias com um papel importante na história do país, muitas delas antigas praças de fronteira. Hoje são doze: Almeida, Belmonte, Castelo Mendo, Castelo Novo, Castelo Rodrigo, Idanha-a-Velha, Linhares da Beira, Marialva, Monsanto, Piódão, Sortelha e Trancoso. Quase todas ficam nos distritos da Guarda e de Castelo Branco; o Piódão é a exceção, escondido na Serra do Açor, no distrito de Coimbra.
As aldeias estão ligadas pela Grande Rota GR22, um percurso circular pedestre e ciclável dividido em etapas que começam e acabam em cada uma delas. Não é preciso caminhar a rota inteira para a aproveitar: muitas aldeias têm pequenos percursos locais que se fazem numa manhã. A informação mais atualizada sobre trilhos, mapas e centros de receção está no site oficial das Aldeias Históricas de Portugal.
Este roteiro foi pensado para quem viaja de carro, que é a forma mais prática de as ligar. As estradas são boas mas sinuosas, e as distâncias que no mapa parecem curtas levam mais tempo do que se espera. Conte com isso e não tente meter mais do que duas aldeias por dia.
Dia 1: Piódão, o presépio de xisto
Comece pela aldeia mais isolada. A estrada para o Piódão sobe e desce a Serra do Açor em curvas apertadas, e de repente, numa encosta virada a sul, aparece o anfiteatro de casas de xisto escuro, com os telhados de lousa e as portas e janelas pintadas de azul. Diz a tradição que o azul se deve a ser a única tinta que havia na única loja da aldeia. Ninguém sabe se é verdade, mas a história combina com o lugar.
O Piódão vive de subir e descer. As ruelas não têm nome, são escadas de pedra que ligam a igreja matriz, branca e caiada no meio de tanto xisto, às hortas em socalcos lá em baixo. Ao fim da tarde, quando os grupos de excursão partem, a aldeia fica quase só para quem lá dorme. É a melhor hora: o fumo das chaminés, o cheiro a lenha, o som da água nas levadas.
Se tiver tempo pela manhã, há percursos pedestres que ligam o Piódão às aldeias vizinhas da serra, como Foz d'Égua, com a sua ponte de pedra e uma praia fluvial. Pergunte no posto de turismo da aldeia qual está em melhores condições na altura da sua visita.
Dia 2: Monsanto e Idanha-a-Velha
O segundo dia leva-o para sul e para leste, em direção à campina de Idanha. Pelo caminho, se quiser, pare em Castelo Novo, na encosta da Serra da Gardunha, outra das aldeias da rede.
Monsanto, a aldeia entre penedos
Monsanto é provavelmente a mais famosa das Aldeias Históricas de Portugal. Em 1938, um concurso promovido pelo regime do Estado Novo deu-lhe o título de "aldeia mais portuguesa de Portugal", e o prémio, um galo de prata, tem hoje uma réplica no alto da Torre de Lucano, a torre do relógio. Mas o que fica na memória é a forma como as casas se encaixam entre blocos de granito gigantes: há penedos que servem de parede, de telhado, de quintal.
Suba até ao castelo, no topo do monte. A subida é íngreme, faz-se a pé e paga-se em fôlego, mas lá em cima a vista estende-se pela planície até Espanha. Em dias de céu limpo, percebe-se porque é que este sítio foi uma fortaleza durante séculos.
Idanha-a-Velha, as camadas da história
A poucos quilómetros, Idanha-a-Velha parece uma aldeia pequena e sossegada, mas assenta sobre uma cidade romana. Há troços de muralha, uma ponte antiga e a velha catedral, um dos monumentos mais antigos da região. As lápides romanas encontradas no local estão expostas num antigo lagar de azeite. É uma visita curta e surpreendente, ideal para o fim da tarde, quando a luz baixa doura a pedra.
Dia 3: Sortelha e Belmonte
Rume a norte, em direção ao planalto do Sabugal.
Sortelha, a aldeia-fortaleza
Sortelha é das aldeias medievais mais bem conservadas do país. O castelo foi mandado erguer por D. Sancho II, que lhe deu foral em 1228, e as muralhas de granito ainda abraçam o núcleo antigo quase inteiro. Entra-se por uma porta em arco e fica-se, literalmente, dentro de outro século: casas de granito, ruas empedradas, um pelourinho, silêncio.
Dê a volta à muralha pelo adarve e procure o ponto mais alto do castelo. Para leste, o planalto estende-se até à raia; para oeste, adivinha-se a Serra da Estrela. No outono, o contraste entre o granito cinzento, os carvalhos dourados e o céu limpo é difícil de esquecer.
Belmonte, a terra de Cabral
À tarde, siga até Belmonte, terra natal de Pedro Álvares Cabral, o navegador que chegou ao Brasil em 1500. Além do castelo, Belmonte guarda uma das histórias mais singulares do interior português: uma comunidade judaica que manteve as suas tradições em segredo durante séculos. A sinagoga Bet Eliahu e o Museu Judaico ajudam a perceber essa história. Confirme os horários antes de ir, porque variam ao longo do ano.
Dia 4: Castelo Rodrigo e Almeida
O último dia é passado junto à fronteira, num território de amendoais, vinhas e horizontes largos.
Castelo Rodrigo, o palácio que ardeu
Castelo Rodrigo ocupa o alto de um monte isolado sobre a planície. A aldeia tornou-se definitivamente portuguesa no fim do século XIII, com o Tratado de Alcanizes, e o seu monumento mais impressionante é uma ruína. Em 1590, sobre a antiga alcáçova, foi construído um palácio para Cristóvão de Moura, figura próxima do rei Filipe II de Espanha. Depois da Restauração de 1640, a população incendiou-o e saqueou-o, e o palácio nunca mais foi reconstruído. As paredes vazias, viradas para a Espanha, contam essa história melhor do que qualquer painel.
Passeie também pela cisterna medieval, pelo pelourinho e pela igreja de Nossa Senhora de Rocamador. E prove as amêndoas da região, que aparecem em doces vendidos nas pequenas lojas da aldeia.
Almeida, a estrela de pedra
Termine em Almeida, a menos de uma hora de estrada. A vila está dentro de uma grande fortaleza abaluartada em forma de estrela, que se percebe melhor caminhando pelos baluartes do que vista de qualquer rua. Há um museu dedicado à história militar e, no verão, uma recriação histórica de um cerco. Ao fim da tarde, a caminhada pelas muralhas é a despedida perfeita da raia.
Alternativas e variações
Se tiver mais tempo, ou se preferir trocar alguma das aldeias, estas três merecem a viagem:
- Linhares da Beira, na encosta da Serra da Estrela, com um castelo sobre a aldeia e vistas largas sobre o vale do Mondego.
- Marialva, com uma cidadela em ruínas no alto de um monte, perto do Douro.
- Trancoso, uma vila maior, com muralhas, judiaria e um centro histórico animado, boa base para dormir.
Castelo Mendo, pequeno e muito tranquilo, fica perto de Almeida e encaixa bem no último dia para quem gosta de aldeias quase vazias.
Antes de ir
- Quando ir: primavera e outono são as melhores épocas. No outono há castanhas, cogumelos e cores nas encostas; no inverno pode nevar nas zonas mais altas e o frio é intenso; no verão, o calor aperta nas aldeias da raia.
- Como ir: de carro. Os transportes públicos entre aldeias são escassos e não permitem fazer este roteiro em quatro dias.
- Onde dormir: durma dentro das aldeias sempre que puder, em casas de turismo rural ou de aldeia. A experiência ao fim da tarde e de manhã cedo é completamente diferente da visita de passagem.
- Calçado: sapatos confortáveis com boa sola. Calçadas de granito, escadas de xisto e subidas a castelos são a regra.
- Reservas: fins de semana prolongados e feriados enchem depressa, sobretudo no Piódão e em Monsanto. Reserve alojamento e restaurantes com antecedência.
- Combustível: ateste o depósito antes de subir à serra. Nas zonas mais isoladas, as bombas de gasolina são raras.
- Horários: igrejas, museus e postos de turismo têm horários reduzidos fora da época alta. Confirme antes de ir.
Para levar para casa
Uma viagem pelas Aldeias Históricas de Portugal é também uma viagem pelos ofícios do interior: cestaria, tecelagem, olaria, trabalho em granito e em xisto. Muitas destas artes continuam vivas em pequenas oficinas e lojas das aldeias, e comprar a quem faz é a melhor forma de ajudar a mantê-las. Se quiser saber onde procurar, leia o nosso pequeno guia do artesanato português, um bom ponto de partida para encontrar, de norte a sul, quem ainda trabalha à mão.